Por que pessoas superdotadas passam despercebidas em casa e nas escolas?
Pessoas com altas habilidades e superdotação costumam ser associadas a ideia de genialidade, excelência acadêmica e sucesso garantido. Porém na prática muitos desses talentos seguem invisíveis e pouco compreendidos, tanto na escola quanto na vida adulta.
O principal motivo é que a superdotação não aparece sempre em forma de boas notas ou desempenho constante. Ela pode se manifestar por meio de criatividade elevada, pensamento rápido, curiosidade intensa, facilidade para aprender determinados conteúdos ou grande sensibilidade emocional. Quando esses sinais não se encaixam no modelo tradicional de ensino, acabam sendo ignorados ou mal interpretados. Por isso Psicólogo e Neuropsicólogo Damião Silva explica como mitos, falta de informação e modelos educacionais engessados impedem o reconhecimento das altas habilidades.
“Ainda passam despercebidos sinais como pensamento extremamente rápidos, questionamentos profundos desde cedo, vocabulário sofisticado, humor elaborado, hipersensibilidade emocional, senso de justiça muito acentuado, empatia intensa e tédio crônico diante de tarefas repetitivas. Muitas dessas crianças demonstram comportamentos que são mal interpretados como desatenção, oposição ou desmotivação, quando na verdade refletem um descompasso entre seu nível de funcionamento cognitivo e as exigências do ambiente.”, explica o psicólogo especialista,
Segundo ele, a forma como a superdotação ainda é compreendida contribui diretamente para essa invisibilidade. “A superdotação ainda é observada a partir de um modelo escolar e cultural muito limitado. A maioria das pessoas associa superdotação apenas a alto rendimento acadêmico, quando na realidade estamos falando de um perfil complexo de funcionamento cognitivo, emocional e comportamental. Soma-se a isso a falta de formação específica dos profissionais da educação e da saúde, a presença de mitos persistentes como a ideia de que o superdotado ‘se vira sozinho’, da genialidade e tantos outros o resultado é um grande contingente de pessoas superdotadas invisíveis”, comenta Damião.

Em vez de serem reconhecidas pelo potencial, muitas crianças e jovens superdotados são vistos como desatentos, desmotivados, inquietos ou até com dificuldades de comportamento, em outros casos o talento fica escondido porque a pessoa também apresenta desafios emocionais, sociais ou características associadas ao TDAH ou autismo, situação conhecida como dupla excepcionalidade. Damião Silva alerta que as consequências da falta de identificação vão além do desempenho escolar.
“O impacto é profundo. Clinicamente, observamos aumento de ansiedade, depressão, baixa autoestima, isolamento social, perda de sentido na aprendizagem e, em casos mais graves, quadros de sofrimento psíquico severo. A superdotação sem suporte adequado não é o fator de proteção, ao contrário, torna-se fatores de risco para a saúde mental. Essas pessoas crescem sentindo que há algo de errado com elas, quando na verdade o ambiente é que não está ajustado às suas necessidades.”, destaca o psicólogo.
O especialista também reforça que diferenciar superdotação de desinteresse ou dificuldade de aprendizagem exige cuidado técnico. Segundo ele, “A diferença está na qualidade do funcionamento cognitivo emocional. O superdotado apresenta curiosidade intensa, pensamento crítico, aprendizagem rápida e profunda, criatividade elevada e grande capacidade de associação de ideias. O comportamento de aparente desinteresse ou indisciplina geralmente surge do tédio, da frustração e da falta de desafios adequados. Já a dificuldade de aprendizagem envolve um padrão distinto, com prejuízos mais globais no processamento. Essa distinção só pode ser feita de forma segura por meio de uma avaliação psicológica e neuropsicológica especializada, que considere cognição, emoção, e comportamento e contexto”.
Para o especialista, reconhecer altas habilidades não é rotular, mas cuidar do desenvolvimento integral dessas pessoas. “O primeiro passo é reconhecer que o aluno com superdotação precisa de cuidado. Nas escolas, isso significa identificar precocemente, flexibilizar currículo, oferecer enriquecimento e, quando indicado, aceleramento, além de investir na formação dos professores. Nas famílias, é fundamental validar as emoções da criança, estimular sem transformar a capacidade em cobrança e buscar profissionais que compreenda profundamente a superdotação.”, orienta Damião Silva.
Reconhecer altas habilidades não significa rotular ou criar expectativas irreais, mas entender como cada pessoa aprende, pensa e se relaciona com o mundo. Avaliação especializada, diálogo entre escola e família e estratégias educacionais adequadas são fundamentais para que esse potencial seja valorizado de forma saudável. Quando recebem o apoio correto, pessoas com altas habilidades têm mais chances de transformar talento em desenvolvimento pessoal, acadêmico e social. Ignorar esses perfis, por outro lado, representa uma perda não apenas individual mas também para a sociedade.

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