Entrevista e texto por André Rossanez

O Portal Me Gusta teve o privilégio de conversar com Gabriela Gomes, uma das grandes vozes do Gospel, na sede da Universal Music em São Paulo.

Receptiva e calorosa, Gabi me recebeu com uma energia muito boa. Conheci uma mulher alegre, falante, empoderada, estilosa e comunicativa. E uma artista que ama o seu trabalho e falar sobre sua música.

Saiba tudo o que ela me contou sobre sua carreira, sua arte, suas inspirações e o álbum “Não Vou Perder a Fé”.

Portal Me Gusta: Como surgiu a música na sua vida?

Gabriela Gomes: Desde pitiquinha. Meu pai é músico e cantot, então eu sempre o ouvia. Eu me lembro da gente viajando no carro. O carro é sempre uma marca assim bem interessante de música, e ele ouvia Whitney Houston, Fred Hammond e The Commodores e eu ficava ouvindo. E eu lembro que a música sempre contribuia para minha imaginação. Então eu lembro, que uma marca que eu tinha na infância, era de dentro do carro com meu pai e minha mãe na frente, ouvindo música e minha mente viajava. Dalí parece que meio que eu me conectei com a música, comecei a criar uma paixão, antes mesmo de cantar. Lembro disso, eu era bem pequenininha, tinha uns 5 anos por aí. Meu pai ouvia música e eu ficava imaginando, imaginando um mundo todo colorido. Depois com o tempo eu comecei a ter contato com o Hip Hop, que meu primo era fissurado. Então comecei a ouvir muito Hip Hop e logo depois nesse período eu gostava de ficar cantando, de cantar. Na minha época o racismo era bem mais forte do que hoje, então quando eu via aquelas mulheres negras, empoderadas e bonitas, negonas, eu me identificava; “é isso que eu quero, cantar e eu quero também me sentir assim”. Eu acho que foi daí. Depois participei de um festival na escola com algumas amigas, cantei e minha mãe ficou surpresa. Ela não sabia que eu cantava e nem eu sabia. Eu me descobri ali.

Me Gusta: Como se dá seu processo de composição?

Gabi: Meu processo de composição é meio louco, porque eu não tenho uma regra para compor. Já veio música pronta para mim na rua, ou em casa, às vezes dormindo e acordava com uma música pronta, ou então passando por algum momento da minha vida e eu escrevia do nada, tocando no violão uma melodi e eu linkava com a letra. Então a composição é uma coisa muito inesperada, é algo que acho que a gente precisa explorar. Mas eu costumo deixar acontecer naturalmente. Agora tô no momento em que faz tempo que eu não componho, mas eu respeito muito o meu processo criativo. Por exemplo, além de cantar sou produtora também e nesse momento é o momento que eu estou produzindo, criando arranjo, tô criando ideias no quesito de continuação da música. Então respeito essas fases. Tem fases que eu tô mais compositora, fase que tô mais produtora, fase e que eu tô cantora só. Então é meio doido.

Me Gusta: Como surgiu seu lado produtora?

Gabi: Desde nova, mesmo que eu amasse a música e a massa e tudo isso, no primeiro momento não me via no palco cantando. Eu sempre me via criando. Acho que desde criança eu tinha essa coisa da criatividade então eu sempre me envia criando E aí eu sempre sonhava e falava “um dia eu vou estudar produção musical e vou ser produtora”. Só acabou, que a vida me levou para outro rumo. Acabou que foi cantora e depois de um tempo tiver oportunidade de produzir. Foi o primeiro CD que produzir o da Midian Lima e foi um grande sucesso e me veio de paraquedas. Era para o meu pai produzir esse CD e ele não tinha tempo e falou “Gabi, produz”. E falei “como vou fazer isso?”. E Deus foi me guiando e me direcionando. Eu meio que exerci tudo aquilo que eu sonhei nesse primeiro projeto e depois produzi a minha música “Meu Pai é Bom”. E também tô produzindo mais um de Midian Lima, o segundo álbum. E tô indo aos pouquinhos.

Me Gusta: Qual a maior desafio, produzir outro artista ou seu próprio trabalho?

Gabi: Na verdade o maior desafio é me produzir. Sendo sincera eu sou uma pessoa muito indecisa. Quando é para mim eu sou muito indecisa e quando é para os outros eu tenho muita opinião, não sei explicar. Para mim é muito mais desafiador me produzir por que para me produzir preciso extrair o máximo de mim, é uma autodescoberta. E um preciso de um autoconhecimento muito grande e do meu momento. Agora para o outro. A Midian, por exemplo, é uma amiga que eu conheço ela há muitos anos. A voz dela, não é o americano e nem o pentecostal gospel brasileiro, é uma junção das duas coisas e eu precisava encontrar esse meio. Fui pegando referências, estudando referências de Folk, Black e ficou muito legal com uma diversidade de música muito bacana. Para mim foi mais fácil produzir ela do que me produzir, porque sou muito criativa e muito intensa. Sou mais unção de muitas coisas, então procuro equilibrar tudo isso em mim. Não é fácil.

Me Gusta: Como aconteceu a parceria com a cantora Luma Elpídio na canção “O Nome”?

Gabi: A gente se conheceu em um projeto e desde sempre amei a Lima. A primeira vez que eu ouvi a música dela, me identifiquei muito. Sempre gostei muito do estilo dela e do que eu via do testemunho dela. Achava muito bacana, então sempre tive essa vontade de gravar com ela. No projeto, a gente criou uma amizade muito grande e calhou de cantarmos no mesmo evento e fomos nos aproximando cada vez mais. Aí veio a proposta da Universal Music da próxima música ser um feat e seria bem bacana porque eu ainda não tinha tido. É bem clichê no primeiro feat de uma cantora chamar um cantor e ntão eu disse “vou escolher uma outra mulher para cantar comigo, vou chamar a Luma então foi muito bacana A Luna”. Ela é uma grande amiga e fiquei muito feliz com a participação dela.

Me Gusta: Como você vê o Gospel atual?

Gabi: Vejo o Gospel num momento muito louco. Durante minha vida eu vi o gospel passar por várias transições. Vi o Gospel ser Black, ser mantra, ser Hip Hop, ser Rock. Então sinto que é um tempo novo para o gospel, porque hoje a gente vê muita gente que não tem gravadora, ninguém sabe quem é e tem músicas que o Brasil inteiro canta. Isso é muito legal porque vem meio na contramão, na curva. Acho que também tem surgido muita diversidade. Apesar do padrão hoje ser o Orcha, vejo que pessoas têm florido dentro disso. Tem até uma cantora que gosto bastante, que a Priscilla Alcântara, uma artista que floresceu dentro de um ambiente igual e floresceu no diferente. Vejo diversidades sendo destacadas e se destacando dentro de um ambiente que parece ser igual, mas que dá oportunidade de surgir coisas diferentes e coisas novas. Acho que o Gospel tá carecendo de mais musicalidades e coisas diferentes.

Me Gusta: Quais são suas influências musicais?

Gabi: Tenho muitos artistas e inspirações. Whitney Houston foi sempre muito marcada lá em casa. Meu pai era fissurado por ela e eu também, a gente era muito fã, não só da musicalidade dela. Eu tinha muita empatia com a vida dela, sempre foi uma artista que sempre amei muito. Tem a Tasha Cobbs e o Kirk Whalum, que é um saxofonista. Gosto muito de instrumental também. Entre outros. Dentro do Brasil tem uma cantora, que tenho muita vontade de dividir o palco. É a Nívea Soares. Tenho nela uma referência muito grande, principalmente dentro do nosso meio cristão e como mulher. Como negra, eu sempre me identifiquei com ela que sempre lutou e falou muito disso. E para mim foi muito significativo uma mulher de Deus, cristã, empoderada em Negra. Sonho muito em dividir o palco com ela.

Me Gusta: Como foi escolher o repertório do seu álbum “Não Vou Perder a Fé”?

Gabi: Não foi muito difícil, porque eu tinha começado a compor um pouquinho antes. E dentro do que já tinha, fomos gravar. Priorizei músicas minhas, coloquei uma música do meu pai e completei algumas músicas que estavam na metade. Sempre priorizei num trabalho ser eu mesma, então toda música que gravo é autoral, no máximo uma parceria. A não ser que tenha uma música muito maravilhosa, que seja minha vida. Acho que o artista precisa colocar e extrair dele a sua essência.

Me Gusta: “Não Vou Perder a Fé”, é uma música muito inspiradora. Como surgiu essa canção?

Gabi: Essa música é uma composição do meu pai e ele compôs baseado na minha história. Já tive depressão, síndrome do pânico. Venci a solidão e a depressão, venci o mundo, os olhares, as críticas e eu mesma. Venci todas as falsas expectativas e frustrações. Então meu pai escreveu sobre isso, sobre uma criança e uma adolescente que venceu a solidão e nunca perdeu a fé. Hoje estou aqui, porque Deus segurou na minha mão e falou ‘não largo da sua mão nem que seja necessário colocar mais um pouco de fé e você não vai perder e não vai naufragar”. É uma música que fala disso.

Me Gusta: Como é sua relação com os fãs?

Gabi: Minha relação é bem legal e eu sou meio doida. Às vezes faço muitos vídeos e ninguém aguenta mais e de repente em uma semana sumo. Não gosto de ter uma regra e de pensar que se eu for de um jeito ou de outro, meu público não vai gostar de mim. Procuro ser o mais ‘eu’ possível, mostrar quem eu sou, do que gosto, o que quero passar e o que é mais relevante. Não sou do tipo de pessoa que abre muito a minha vida nas redes sociais. Acho que quem abre muito dá total liberdade para ouvir o que as pessoas querem dizer, e às vezes a gente não quer ouvir o que dizem. Graças a Deus meu público é muito amável, muito gente fina e muito top. Meus fãs são muito legais e a gente interage, brinca e ri. Procuro sempre trazer um ambiente de respeito.

Me Gusta: O que podemos esperar dos próximos passos da carreira?

Gabi: Esse ano, vem álbum novo muito especial e muita coisa. Tô vivendo um momento de transição na minha vida, e muita coisa com influência da minha infância vai vir no meu álbum. Venho lançando músicas de adoração, bem Orcha com mistura do Black e Pop. Inicial Não quero explorar a minha musicalidade Black Music e minha musicalidade R&B. Vai vir muita coisa legal.

Me Gusta: O que você diria para quem está começando na carreira de cantor?

Gabi: Falaria para que eles tranquilizassem o coração e entregassem na mão de Deus. na minha vida sempre aprendi que todas as vezes que eu estava menos ansiosa, foi que as coisas mais fluíam. Então a gente tende a tentar controlar e querer achar que, se a gente sair do controle, as coisas vão desabar e que não conseguiremos chegar onde queremos. E não é isso. Às vezes as pessoas que não tem estrutura para chegar num lugar alto, conseguem chegar lá por mérito próprio, mas não se sustentam por não terem estrutura para se manter lá. Não tem Cruz que Deus me coloca para carregar, que eu não consiga carregar. Tudo vem na medida de Deus. Então você que é cantor, é artista, trabalha, estuda, corra atrás do seu melhor e de conhecimento e tente deixar as coisas acontecerem na hora e no tempo certo, sem passar por cima de ninguém. É só colocar o coração no lugar certo e as coisas acontecem como têm que acontecer.

Não é à toa que Gabriela Gomes é uma das maiores e melhores revelações da música gospel atual. Além de ser mega afinada e escrever belas músicas com letras muito bem escritas, ela é uma daquelas artistas que ama o que faz e que busca sempre levar positividade para as pessoas e belas mensagens.

Eu com Gabriela Gomes após a entrevista