Texto e entrevista por André Rossanez

O Portal Me Gusta teve o privilégio de conversar em São Paulo com Limonge, um grande cantor e compositor responsável por trazer canções que nos inspira e com letras incríveis.

No dia 10 de Agosto, o artista gravou seu DVD do show “Sobre Viver” na capital paulista, com os sucessos de seu repertório. Um dia inesquecível e especial.

Conheça melhor Limonge e sua arte e saiba os detalhes de sua carreira, sua música, suas inspirações e de seu DVD. Confira tudo o que conversamos na íntegra.

Foto: Patrícia Scavone

Portal Me Gusta: Como apareceu a música na sua vida?

Limonge: Acho que ela não apareceu, ela meio que nasceu. Eu me lembro de querer ser músico desde que me conheço por gente, meu primeiro sonho. Vou contar uma história que raramente conto. Quando eu era moleque, com uns 3 anos, a primeira lembrança que eu tenho, é que eu não gostava de ver desenho, eu gostava de ver o VHS do Lulu Santos, de um show que ele fazia não lembro onde e ele suava, pingava e eu tinha uma guitarrinha de palhaço e eu ficava tocando em frente à televisão. Quando ele começava a suar, eu ia para debaixo da torneira, molhava minha cabeça e dizia que eu era o Lulu suadão e voltava para a televisão para tocar junto com ele. Acho que a música nasceu comigo. Eu sempre quis ser o Lulu Santos e as pessoas que eu idolatrava. Eu nunca tive outro sonho na vida, senão de ser músico. Deixei ele guardado na gaveta por muito tempo, por conta desse lance de que “você precisa ganhar dinheiro”, “a sociedade não gosta de artistas e tralala”. Então eu só abri o armário da música, há cerca de três anos. Mas a música é a minha essência e não consigo me ver sem a música.

Me Gusta: Como é seu processo de composição e suas inspirações?

Limonge: É muito baseado em questões autobiográficas. Passei por muitas coisas na vida em questão familiar e em questão pessoal e gosto de ser visceral nas letras. Gosto de contar minha história. Mas não no sentido autobiográfico puro, do negócio das pessoas olharem falarem ‘nossa, coitado dele’. Eu quero que as pessoas se enxerguem nas letras. Tento sempre colocar no prisma, onde a pessoa quando ouve consiga se colocar no lugar daquela música. Então, as temáticas que a bordo tento sempre pensar, “essa letra pode ajudar alguém, representar uma mudança na vida da pessoa, pode ser um mantra para alguém”. Tento sempre compor pensando nisso. O processo de composição é pegar o que eu passei e tentar transformar em algo que as pessoas sintam, e passam. Minha premissa musical é essa, e quando eu vejo que consigo isso, de alguma forma, me faz um bem danado. Se eu pudesse te dar um exemplo de processo de composição é esse. Eu não tenho meio que um processo de “preciso sentar à noite e escrever”, não. Acho que simplesmente o negócio bate e vem. Posso estar aqui, pegar o violão e de repente fazer algo. Então a música vem, não é uma coisa montada ou que eu fale “preciso compor sobre isso”. Acho que a música vem pedindo uma letra, ela só vem. Não gosto de dizer que a música é minha. Ela vem para alguém e quando ela chega na pessoa certa, fico feliz.

Foto: Patrícia Scavone

Me Gusta: No primeiro álbum da sua carreira, foi você quem fez a produção e mixagem. Como foi a sua experiência?

Limonge: O primeiro disco fiz sozinho. quando eu fui produzir esse disco, eu estava em outra profissão, eu era publicitário. Eu não tinha tempo e nem grana para pegar um produtor, então eu meio que fui aprendendo aos pouquinhos, a fazer as minhas próprias coisas. Eu montei um home studio, que era uma plaquinha, um teclado e uma guitarra e comecei a gravar algumas coisas. Eu pegava algumas composições e ia decupando elas e isso foi ao longo de um tempo. Disso saiu o primeiro EP em 2015, para alguns amigos e acabou dando super certo. As pessoas que eu não conhecia vinham me dizer que gostaram das músicas e eu falei “acho que isso pode dar jogo”. Peguei e fiz mais algumas músicas nesse mesmo formato e lancei como o primeiro álbum, que na verdade é uma compilação de muita coisa que eu tinha feito ao longo do tempo e não tinha dado a devida atenção. Acabou dando super certo. Gosto bastante desse álbum, ele é a minha cara porque produzi sozinho, porém eu gostaria de ter tentado coisas novas, que ao meu alcance não eram viáveis ainda, pois tinha uma limitação. Nunca tinha feito um curso nem nada, eu fui bem autodidata e no segundo álbum consegui botar isso de uma forma mais incisiva e quero continuar nessa linha produtiva. Mas foi esse primeiro álbum que me botou no mundo, então eu sou bem grato por conta disso. E foi um processo bem legal. Acho que todo músico tem que tentar experimentar, mesmo que ele não consiga fazer da forma que ele quer. É um passo importante.

Me Gusta: Como surgiu a música “Humano” e como foi gravar o clipe na Paulista? Como apareceu a ideia de contracenar com um dinossauro?

Limonge: Essa música é um retrato do que eu enxergo do nosso momento atual. Acho que a gente está cada vez mais olhando para o nosso próprio umbigo e o resultado disso, é o resultado das últimas eleições. Eu tentei tratar isso de uma forma leve e mostrando que apesar da gente evoluir, a gente tá caminhando para a extinção. A gente evolui em alguns pontos e regride em outros patéticos. A história da música é essa. o que sinto nesse último período e o que tô vendo que a gente está caminhando para seguir. A ideia era botar o Bolsonaro e Donald Trump junto com o dinossauro, e mostrar que a gente está caminhando por esse processo inverso à evolução. Mas aí me convenceram a não usar essas duas figuras, por motivo de processo e acabou ficando só o dinossauro. Mas acho que ele simboliza esse momento que a gente está vivendo, e essas pessoas que a gente tá encarando no momento.

Me Gusta: Como surgiu a música “Tudo Vai Passar”? E a ideia de toda renda de 2018 com a música, ser revertida pra instituição CVV,?

Limonge: Eu tenho depressão e essa música surgiu num dos piores períodos que eu passei, onde não via uma luz no fim do túnel. E eu pensei que precisava de alguma coisa que me desse essa luz. Então compus isso, como meio que “já passei por coisas piores e passou, rntão vamos manter o foco e a força, que vai passar”. E ela nasceu disso. A ideia da doação para o CVV, é porque acredito que tem muita gente que menospreza a depressão, e essa foi uma forma de eu retribuir e ajudar a quem precisa, através dessa música, porque ela nasceu para isso. Achei justo ter uma forma de devolver a força que ela me deu, mesmo que não fosse através da própria música, para alguém que precise. Acho que é um projeto super valorizado e que precisa dessa valorização e dessa ajuda. Então, acredito que foi uma forma de retribuir a força que essa música me deu, para um projeto que pode ajudar outras pessoas que estão passando pelo mesmo problema.

Foto: Patrícia Scavone

Me Gusta: Ao final do clipe da música “Tudo Vai Passar”, vemos a participação de pessoas que seguram algumas placas com mensagens. Como elas foram escolhidas?

Limonge: São meus fãs. São pessoas que já acompanhavam o meu trabalho. Fiz um grupo no WhatsApp com essas pessoas e foram elas que pediram para essa música ganhar um clipe. minha ideia nem era fazer um clipe para essa música, porque ela é muito visceral e mexe muito comigo. E na hora que elas pediram, eu disse “só vou fazer se vocês participarem também e vamos fazer essa corrente para mostrar que todo mundo pode ajudar todo mundo”. Foi uma criação em conjunto. Posso te dizer que as pessoas que estão próximas a mim, e que são minhas fãs, participam de forma ativa da minha carreira e gosto de propor a elas, em tudo que vou fazer. Seja um single, um projeto, um set list de show, elas participam ativamente. e foi essa cocriação que acabou dando super certo. Tanto que a música ganhou outro direcionamento, e hoje tem pessoas que usam ela, para uma série de coisas que não a depressão, ao passar por outros momentos de dificuldade eu quero que seja. Tiveram duas pessoas que vieram de Belo Horizonte para gravação do DVD, por conta dessa música e porque elas estavam passando por um problema difícil e foi muito legal. Acho que quando a gente abre o coração, para que as pessoas que estão próximas, participem do seu processo, tem tudo para dar certo. E foi isso que fez essa música ganhar esse tamanho todo.

Me Gusta: Como foi escolher o repertório do DVD “Sobre Viver”?

Limonge: Eu tenho muita música que ainda não lancei e queria por muita coisa inédita. Mas eu pensei “não é o momento ainda, acho que preciso produzir com mais calma essas coisas, porque quero experimentar mais”. Meio que coloquei no papel todas as músicas que eu tinha lançado, seja em EP, ou em outros projetos anteriores ou no meu último álbum e joguei para galera e falei “o que vocês queriam ouvir ao vivo, quais são as suas favoritas?” E nisso fui pegando o feedback dos fãs e das pessoas próximas, e foi isso que fez o set list ficar pronto. É óbvio que tinham algumas que eu fazia questão e todas foram escolhidas. Mas as músicas finais do DVD foram as pessoas que escolheram, porque gostam ou porque se sentem representadas por um momento. Foi uma cocriação. Foi difícil e complicado. Mas fiquei muito feliz com o resultado. Tudo o que eu fiz de melhor está lá e estou ansioso para soltar isso logo.

Me Gusta: Como surgiu a parceria com Criston Lucas, o vocalista da banda Versalle?

Limonge: Já tinha contato com ele há algum tempo, não tão próximo. Mas sempre fui fã, desde que vi eles no “PopStar”. Aliás foi o programa “PopStar” que me atiçou essa coisinha de “preciso voltar a tocar”. E prestes a gravar o DVD eu disse, “vou convidar algumas pessoas que admiro e vou ver o que rola”. E ele era uma dessas pessoas. Eu mandei a música, conseguiu o contato dele e mandei uma mensagem de ‘Se você quiser participar, eu sou super fã da Versalle, curto pra caramba seu projeto e sua voz, vê o que acha e me diz”. Ele super curtiu, topou e disse “cara, eu quero participar achei foda”. Acho que todo mundo tem que ser de vez em quando ‘cara de pau’ assim. Foi assim que consegui. óbvio que a Versalle tá em outro patamar frente ao meu momento, mas se os músicos forem um pouquinho mais ‘caras de pau” e chegarem próximos às pessoas que realmente admiram, com verdade, dá certo.

Foto: Patrícia Scavone

Me Gusta: Quais são suas maiores inspirações musicais?

Limonge: Lulu Santos, começou com tudo e me fez me enxergar como músico. Flutuo muito com Lenine. Djavan moudou um pouco do meu caráter. De gringos, o Pearl Jam, Foo Fighteras e Oasis. Do independente brasileiro, Versalle, Zimbra, Plutao Já Foi Planeta, são bandas que admiro pra caramba, gosto pra cacete. E tem os parceiros de estrada, Gabi, Vamos, Felipe D’Orázio, que participaram inclusive do meu DVD. É uma miscelânea gigantesca e tem muita coisa. Isso resume um pouco.

Me Gusta: Como você vê o atual cenário musical independente?

Limonge: Vejo que é um cenário que tem um potencial gigantesco. A gente tem muito caminho para ser explorado, mas é um cenário muito pouco unido. Sinto falta dessa união do independente. Sei que tem bandas que criaram cenas próprias, tem bandas que fazem tour juntas e conquistam juntas. Mas tem bandas que não são tão grandes e ainda estão na caminhada e em ascensão, e que realmente enxergam as outras como competidoras, e isso é prejudicial pra cacete. Por que a galera acha “vou roubar o fã dela e ela vai roubar meu fã”, e aí não querem fazer um show juntos ou fazer um feat. Acho que se a gente tivesse mais união e os artistas se enxergassem como apoiadores e não como competidores, a gente conseguiria ir muito mais longe. A internet ajuda demais, mas se a gente não se une para apresentar um negócio de forma conjunta, nada funciona. Se tivesse mais união, certamente a gente ia mais longe.

Me Gusta: como surgiu as faixas “SAC Da Minha Vida”?

Limonge: Pra ser sincero é uma das músicas que eu menos gosto das que lancei. Eu meio que fui convencido em lançar por conta dos fãs. Ela nasceu de um dos dias mais medonhos que tive na vida, em que tudo que podia dar de errado aconteceu e eu disse que precisava de um SAC para ligar e reclamar da minha vida e escrevei ela a partir disso. Sendo sincera não é uma das minhas favoritas, mas acho que ela tem um lugarzinho no meu coração. Teve gente que pediu para colocar ela no DVD, mas acho que fugia muito da linha que eu tava trabalhando, e preferi não, porque ia ser uma queda.

Foto: Facebook Oficial Limonge

Me Gusta: Qual é a melhor e a pior parte na carreira de músico?

Limonge: A pior acho que é você não se sentir valorizado em determinados momentos. Você buscar o seu espaço e saber que se dedicou horrores, e que às vezes você trabalha mais que muita gente, e as pessoas acham que por você ser músico, você é um vagabundo e que tá ‘mamando nas tetas do governo’, esse tipo de coisa que é comum hoje em dia os artistas ouvirem. Ainda mas hoje no momento que a gente tá vivendo. Esse é um lado bem ruim, principalmente quando a grana aperta. Porque hoje a gente é remunerado através de show, de merch e de plataformas de streaming, o que não tem retorno tão grande. Você pode ter números absurdos de plays, mas o retorno é baixo. É complicado você sobreviver só de música hoje. Mas o lado positivo é que me trouxe pessoas incríveis e pessoas que têm histórias incríveis. Cada vez que eu recebo uma mensagem falando ‘sua música me ajudou para cacete’, ‘sua música salvou meu dia’ ou ‘essa sua música conta um pedaço da minha história que nunca imaginei reviver’, eu vejo que tudo valeu a pena. Cada vez eu vejo mais que não tô na música por causa da grana, eu tô na música porque eu amo. Onde que a gente precisa de grana pra sobreviver, mas se eu tiver o mínimo tô feliz. Acho que o melhor lado é você saber que pode mudar a vida de alguém e o pior, é saber que existem pessoas que não enxergam isso como uma profissão.

Me Gusta: Você ter sido publicitário, hoje em dia ajuda de alguma forma na carreira?

Limonge: Ajuda. Tive um background grande de publicidade e, querendo ou não, isso ajuda a pensar em ações de lançamento, em anúncios que você pode fazer, em coisas que você pode aproveitar nas redes sociais para estimular visualizações. Óbvio que se não tiver verdade no que você tá fazendo, não vai dar certo, mas é um ponto positivo, agrega. Tem muita coisa que aprendi com empresas e podem ser utilizadas na música, e acho que se mais pessoas estudassem e utilizassem as redes sociais pensando na música como um negócio, conseguiriam ir mais longe. Mas não é só isso. Tem o lance da verdade da música, o lance do relacionamento e uma série de pontos que precisam serem trabalhados, não só a publicidade. Mas ela é um dos pilares para que você possa sustentar a sua carreira. Agrega muito, mas não é só isso.

Foto: Facebook Oficial Limonge

Me Gusta: Quais os próximos passos na carreira?

Limonge: O DVD vai sair até o final de Setembro. A previsão é essa. Vai ter uma tour para celebrar esse lançamento. Até o final do ano vai ser só DVD. A minha ideia é que a partir do ano que vem, já vem uma nova leva de singles. Já tô tentando fechar uma produtora e já tem algumas músicas na gaveta, que tão bem diferentes das que lancei até aqui. Óbvio que a temática se mantém um pouco próxima, mas quero experimentar coisas novas, propor coisas novas. Acho que vai ser uma evolução frente ao que foi. Eu tô bem ansioso para chegar nesse momento. No momento ainda tô naquela fase de ‘eu quero o DVD e ver como ficou’, mas pós DVD já tô com algumas coisas na manga, esperando só para sair.

Me Gusta: O que você diz aos cantores que estão em início de carreira?

Limonge: Não desiste, não postargue. Eu demorei muito pra começar, comecei velho. Então talvez se eu tivesse o pensamento que tenho hoje, eu tivesse arriscado antes e estaria em outro momento ou teria antecipado esses momentos. Então se você sente que essa é a sua verdade e que você nasceu pra isso, se joga de cabeça. Você tem que viver o seu sonho. Se você não faz isso, você vai ser uma pessoa frustrada pra sempre. Grana é importante, dá pra tentar conciliar e fazer com que isso se torne um segundo trabalho, por algum tempo. Mas não postarga. Vive o seu sonho e arrisca. Porque no final, mesmo que venham 1, 2, 3, 10 ou 20 pessoas, e você sentir que você ajudou alguém e que alguém gostou do seu trabalho, a ponto de te acompanhar, é que tudo valeu a pena. Segue nessa que é bom demais.

Eu com Limonge após a entrevista

Limonge é o tipo de artista que consegue com muita naturalidade tocar o nosso coração, através de suas letras e de sua voz gostosa de ouvir.

É muito bacana ver o entusiasmo e o amor pela música, através dos olhos do artista. Além de talentoso ele é um cara muito gente boa, simpático, comunicativo e tem muita coisa interessante em contar.

O Portal Me Gusta aposta todas as fichas em Limonge. E você, com certeza vai querer ouvir muitas e muitas vezes suas belas canções.

– Obs:

Aproveito para convidar a todos a conhecerem o trabalho do Centro de Valorização da Vida, o CVV, que ajuda no apoio emocional e na prevenção contra o suicídio.

Acesse: https://www.cvv.org.br/

Se você precisar de ajuda do CVV, ligue para o número 188 ou entre no site