Bruna Caram lançou em 26 de agosto o quinto álbum da carreira, “Alivio”. Um álbum lindo, brasileiro né de muita personalidade.

Este é o trabalho mais autoral da cantora, que assina sete das nove músicas do álbum. Com produção de André Moraes, o disco conta com as participações de nomes como Marcelo Jeneci, Ailton Reiner e Jean Dollabella, do Sepultura, entre outros.

O Portal Me Gusta teve o privilégio de conversar com a cantora por telefone para falar de carreira, música e o novo trabalho.

Saiba tudo o que conversamos na íntegra.

Portal Me Gusta: Como surgiu a música na sua vida?

Bruna Caram: A música surgiu antes da vida, até. A minha avó foi cantora de rádio nos anos 50 e ela gravou uma participação em uma música que falava de maternidade que chama “Livre” e o meu avô era violonista. Então eu já nasci no meio musical perto de produtores, compositores e professores de música. Quando eu era criança, a casa da minha avó no interior, era uma escola de música e então, muito antes de ser minha profissão, a música foi a primeira maneira de viver para mim. Uma maneira de ser feliz e estar com as pessoas que eu gostava. Antes de decidir fazer isso como minha profissão, conheci a música como prazer e para fazer feliz.

Me Gusta: Como se deu o processo de escolha de repertório do novo disco “Alívio”?

Bruna: Eu comecei os trabalhos em Janeiro com uma pré-produção do André Moraes. Fiquei bem feliz de encontrar o André, porque o conheci como cineasta, que é uma das profissões dele e ele me conheceu como atriz em um trabalho com o Sérgio Pena, que é um dos preparadores de elenco mais requisitados do Brasil e cuja equipe eu faço parte. Eu queria muito que o disco mostrasse a interpretação em primeiro lugar e contasse as histórias das músicas, e tinha vontade de que a música brasileira aparecesse mais do que nos outros álbuns anteriores. Queria que quem ouvisse soubesse que é a neta de um violonista, então foi muito gostoso. A gente ouviu de Reggae a Queen e Rock’n Roll, que é a praia do André e fui encontrando essa possibilidade de fazer um disco com bastante dinâmica e muito foco nas letras das músicas. Eu acho que isso refletiu no resultado final, até porque a maioria das letras são minhas.

Me Gusta: Como é o seu processo de composição e suas inspirações ao compor?

Bruna: Até não tem para trás eu não me via como compositora. Me envia bastante como letrista, porque eu escrevo desde criança, mas não me sentia muito capaz de compor música mesmo. Foi por causa dos meus parceiros que eu sair do armário como compositora e nos meus discos anteriores, ficou bem mais claro, Por que tenho parcerias com Chico César, Roberta Sá e Zeca Baleiro, que foram pessoas importantes naquele momento. E no “Alívio”, eu apareci sozinha como compositora, e com certeza, começar a tocar instrumentos me deu esse lugar de segurança que eu não conhecia. Estudei piano e violão desde adolescente, abandonei os dois na faculdade e demorei muitos anos para ter coragem de novo, de me encontrar com os instrumentos. Acho que o motivo de eu ter voltado, foi ter ganhado a sanfona do meu avô, depois que ele morreu e de repente me vi com esse instrumento tão bonito e tão difícil no meu colo. Então decidi que mesmo que eu tocasse mal, eu tocaria, e foi assim que consegui me abrir para composição em geral. Hoje eu componho no piano mesmo ou até a capela, mas o fato se eu conseguir escrever minhas músicas e falar para os músicos, foi uma evolução na carreira. Eu virei uma outra artista muito mais feliz e menos insegura. E o disco é sobre isso.

Me Gusta: Como foi fazer a sua versão de “Certas Canções”, do Milton Nascimento?

Bruna: Escolher uma canção de um dos maiores cantores do universo é sempre libertador e um desafio. Eu via composições de compositores conhecidos e pareceria que em nada, eu achava um diferencial e com a potência que eu queria. Essa música do Milton apareceu, porque acho esse tema muito lindo, de dizer o quanto se ama a arte alheia. Aí caiu a minha ficha, de que em um disco tão autoral, a única música não autoral, que fala da arte alheia, é também um elemento de cura e de união, e para mim foi como encontrar uma justificativa do disco todo. E Por incrível que pareça a ideia de arranjo veio de mim, tocando a música sozinha em casa. Então, ela começa uma coisa meio sombria e isso foi uma brincadeira minha em casa tocando e que gravei e mandei para o produtor E ele disse ‘não importa o que a gente faça, vai começar assim a música’. Foi muito bom trazer o meu piano como referência. O André pôde trazer o lado metaleiro e o lado Rock and roll dele para criar e demonstrar, a força que essa letra tem. Acho que o refrão é um estouro, falando do que a arte faz. E num disco que é sobre cura e autoestima e que fala também de questões políticas e opressões, falar do amor no final é muito simbólico pra mim.

Me Gusta: E como foi gravar o clipe de “Certas Canções”?

Bruna: O clipe é uma loucura. Quem dirigiu foi a Fernanda Pessoa, O que é uma grande amiga e que fez um filme bem premiado e que está no Netflix, chamado “Histórias Que O Nosso Cinema Não Contava”, que é sobre a pornochanchada na época da ditadura militar e há muitos anos, ela me chamou para fazer um experimento com ela de dança, que ela ia gravar em película 2mm e esse experimento acabou não dando certo para o que ela queria. A gente resgatou esse material que a gente tinha feito, há seis anos atrás e ficamos assistindo aquilo juntas e pensando no que fazer. Aí eu trouxe a canção já pronta, e a gente decidiu gravar novos trechos e ela usou a referência incrível da época dos primeiros filmes do cinema. E então a gente conseguiu reunir visualmente, essa mesma questão da letra, que é dizer o quanto as artes nos libertam e o quanto é bom sempre reverenciar todo tipo de arte. E foi incrível também fazer o clipe dançando. Sempre fui ligada na arte, não só no canto, mas também fazer dança e teatro. Eu fazia tudo que era possível e acho que foi a última vez, este ano, que consegui dançar direito, porque eu já tava grávida quando gravei esse clipe e fiquei muito feliz de me ver desta maneira agora.

Me Gusta: Como surgiu a parceria com Jean Dollabella do Sepultura?

Bruna: Veio pelo André que gosta muito de rock e eu fiquei muito feliz de justamente, em um disco tão clássico cheio de referências brasileiras, trazer alguém do metal e justamente na música do Milton, que é um clássico e que nunca deixará de ser. E acho que faz muito parte do meu trabalho, ter gêneros diferentes e fazer ter sentido quando são combinados. E também acho que não disco onde eu conto histórias que aconteceram comigo e com tantas outras pessoas, não importa muito gênero que cada música toca. O que importa é chegar junto e foi o caso, assim como todos que participaram desse disco.

Capa de “Alívio”

Me Gusta: E como surgiu a parceria com Marcelo Jeneci em “Meu Perdão”?

Bruna: O Jeneci é um grande amigo de muito tempo e ele tocou em quase todos os meus discos. Desde o primeiro ou segundo álbum, o Jeneci está junto, desde antes dele compor e cantar, ou desde antes de eu saber que ele cantava. Eu participei do disco do Jeneci como preparadora vocal dele. Então a gente tem se encontrado muito. Eu queria uma participação dele. Além de músico, ele é uma pessoa fantástica.

Me Gusta: Como surgiu o seu lado atriz?

Bruna: Ele é fundamental como cantora. Eu sinto que se eu não tivesse encontrado o teatro, eu teria parado de cantar, porque mudou tudo. Foi como se eu fosse o patinho feio, e encontrasse o meu lugar, quando encontrei o teatro. Bem antes da primeira minissérie na Globo que eu fiz, participei da oficina de teatro com a Cris Serra, que é diretora de teatro e atriz, e prima da diretora de teatro Bia Muniz (que foi quem dirigiu o espetáculo “Falso Brilhante” de Elis Regina). Depois que eu conheci a Cris, Nunca mais a abandonei, ela dirige todos os meus shows. Pra mim só cantar, não vale a pena. Cantar já é atuar, atuar já é dançar, dançar já é compor e compor já é fazer um filme. Eu cada vez mais gostaria de mergulhar em várias artes de uma vez só. Porque eu vejo que nunca enxerguei as artes como coisas separadas. A música para mim é mais do que só música, é a história, é evolução, é um elemento de união e consciência. A música é o meu motor pra tudo.

Me Gusta: Como foi trabalhar como atriz na série “3 Irmãos” na TV Globo?

Bruna: Acho que talvez foi a experiência mais bonita da minha vida. O convite surgiu ao acaso. Eu nunca me inscrevi e nunca entrei em contato com alguém da Globo, para fazer algum teste. Eu nem me considerava propriamente atriz, quando eu fiz o teste e em um mês minha vida mudou completamente. Me mudei para o Rio, tive de mudar toda minha logística e passei a conviver todos os dias com atores e artistas, que me receberam como alguém da família e como alguém muito capaz de trabalhar e estar a altura deles. A personagem foi um presente, muito diferente de mim e muito parecida ao mesmo tempo. E sei que ainda vão pintar muitas outras oportunidades de trabalhar como atriz e de ser outras. Já apareceram outras oportunidades, algumas possibilidades, mas que esse ano não foram possíveis. Mas aguardem que em breve vocês me verão, seja na TV ou em séries ou no teatro. É uma coisa que está muito dentro de mim.

Me Gusta: Sua relação com os fãs, como é?

Bruna: É muito próxima e tranquila. Felizmente até hoje, muitas poucas vezes algum fã passou a barreira do respeito. Eu consigo muito através das redes sociais, estar mais perto. Nos shows sempre recebo a plateia inteira no camarim depois e pra mim é muito importante. O meu trabalho é muito humano e acho que inclusive, ter todas as artes juntas tem a ver com isso, receber as pessoas e abraçar elas.

Me Gusta: Quais suas principais influências músicais?

Bruna: Obviamente, Elis Regina, que foi quem me ensinou a ver cantar como algo sério. Com certeza Dominguinhos e o Luiz Gonzaga, desde que comecei a tocar sanfona. De cantoras, a Nora Jones e a Maria Bethânia. Hoje me inspiro também em compositores que eu gosto, amigos do 5 à Seco, e o próprio Rubel, que é um amigo. Gosto de ouvir tantas coisas diferentes. Mas de voz acho que as que mais me acalentam são a Norah e a Bethânia.

Me Gusta: Quais os próximos passos da carreira que você pode adiantar?

Bruna: Os próximos passos são uma turnê maravilhosa, até Novembro. Em Dezembro vou parar, depois vou colocar mais uma pessoa no planeta e vai ser uma grande experiência. Entre Dezembro e Janeiro, lanço meu novo livro de poesias e ano que vem retomo a turnê do “Alívio” ou uma nova turnê de música e poesia com o livro novo.

Me Gusta: O que você diria quem está começando na carreira de cantor?

Bruna: Pra todos os cantores populares do mundo eu diria: Estudem. Acho que a técnica e a interpretação são grandes amigas e cantar com a alma, tem tudo a ver com conhecer sua própria voz. É por isso, que eu trabalho com isso e estudo todos os dias da minha vida. Sempre valeu a pena.