Por André Rossanez

A Rainha do Axé Daniela Mercury lança o seu delicioso vigésimo álbum “Perfume”, produzido por ela mesma junto à Yacoce Simões.

Com 15 músicas e uma faixa bônus, o novo trabalho é uma bela homenagem aos 70 anos do Trio Elétrico e aos 35 do Axé Music e também exalta as culturas brasileira, afro e nordestina.

Daniela reflete sobre o novo disco “Para mim, a alegria é muito profunda. Por isso, reuni um ano de produção musical em uma obra que protesta com esperança e humor. ‘Perfume’ tem as minhas raízes carnavalescas, o meu samba reggae, um galope rock’n roll para celebrar o trio elétrico e muito humor, aquele “non sense axezístico” para confrontar o cinismo, a censura, a LGBTfobia, o racismo e os ataques à cultura brasileira e à natureza”.

Capa – Foto de Célia Santos e Arte de Carol Zatti

Ela ainda completa, “Fiz questão, por exemplo, de regravar Chico Buarque. Na minha opinião, nunca o Brasil precisou tanto do Axé! Por isso, a Alegria continua sendo a minha maior revolução”.

Para abrir o disco com chave de ouro, o single “Rainha Da Balbúrdia”, é um Axé com muita guitarra e de cunho mais social, fala sobre a arte como resistência e da importância de não nos calarmos.

Também temos a inesquecível parceria de Daniela com Caetano Veloso, “Proibido o Carnaval” que nos convida a sairmos de qualquer armário e sermos felizes e que diretamente critica o governo bolsonaro e a ministra Damares Alves. “Você vai de Rosa ou vai de Azul?”.

“É minha primeira gravação com Caetano Veloso. Compus a música pensando nele, para ele gravar comigo. Caetano tem um trio elétrico com seu nome (Caetanave) e me deu de presente (anos atrás) uma obra prima: a música Axé Axé! Eu quis retribuir tudo que ele representa e falar da sua influência para a existência do Axé”, conta Mercury.

Foto: Célia Santos

Daniela trouxe sua gostosa versão de um clássico de Chico Buarque. “A Banda” virou “La Banda”, uma versão em português e em italiano com bastante guitarra e elementos eletrônicos, com a participação da banda italiana I Koko.

E ainda há mais participações especiais. A esposa da cantora, Malu Mercury divide os vocais com ela em “Duas Leoas” e mostra seu vozeirão grave e belo. Já em “Longínquo Longe”, uma das mais sensíveis canções, é seu filho Gabriel Póvoas que empresta sua bela voz que ao mesmo tempo é doce e bem forte.

E Carlinhos Brown canta com Daniela em “Andarilho Encantado”, que personifica o carnaval em um andarilho que sai da Bahia, passa pelo mundo todo e depois volta a sua origem.

Daniela e Malu – Foto: Célia Santos

Outro ótimo single é “Triato” que cita no começo “Nesta Rua, Nesta Rua” e é uma linda homenagem ao trio elétrico. Um belo Axé eletrônico com muita guitarra, personalidade e baianidade.

Para pedir paz neste mundo cheio de guerras e intolerância, Daniela Mercury imprime a sua identidade em uma versão Axé com bastante percurssão para o clássico de John Lennon “Imagine”. Ficou incrível.

Destaque para “Pagode Divino”, que começa como um Axé cheio de guitarras e se mistura com elementos do Pagode, formando uma gostosa música sobre batalhar e ser livre com fé e fazendo o bem.

E é impossível não se apaixonar pela faixa “Pantera Negra”. Daniela nos presenteia com uma linda homenagem a cultura e a religião afro, lembrando que os ancestrais da humanidade eram negros e exaltando toda a influência no Brasil da cultura afro. Tem até citação da cidade fictícia de Wakanda.

O novo álbum de Daniela Mercury é simplesmente incrível. Um disco totalmente atual, com canções que nos pegam pela emoção e pela alegria. Uma bela homenagem não só ao Axé, mas também a todo o povo brasileiro.

Daniela soube falar de forma muito positiva e gostosa sobre amor, diversidade de vários tipos, direitos, miscigenação, cultura brasileira, cultura afro e Axé Music. Quando escutamos não conseguimos ficar parados e as músicas mais calmas tocam o nosso coração profundamente.

Resumindo muito bem a alma do novo trabalho, Daniela Mercury pondera muito bem “Cantar nossa música com nosso sotaque, nosso vocabulário, nossos ritmos, instrumentações, letras, poesias e danças são atos de existência e de resistência originais e poderosos”.