Texto e Entrevista Por André Rossanez

A brasiliense (nascida no Uruguai) Gabi Doti é sem dúvida, uma das melhores cantoras que estão se destacando no cenário musical brasileiro. Cm muito talento, uma voz única e muito bela e uma compositora daquelas que dão orgulho na gente.

O Portal Me Gusta teve o privilégio de entrevistar a artista ao telefone numa conexão Brasília/São Paulo. Falamos sobre a carreira de Gabi, o belo e e mais recente álbum “Outra Razão”, o sensível single “Otra Razón” e este momento de Quarentena.

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Foto: João P. Teles

Foi um bate papo muito bacana e inspirador com Gabi Doti e você vai adorar conhecer um pouco mais desta cantora incrível. Saiba tudo que ela contou, na íntegra.

Portal Me Gusta: Como surgiu a música na sua vida?

Gabi Doti: Na realidade, tem dois momentos que eu posso dizer. Num primeiro momento, a música ela começou na minha vida, quando eu era criança muito por influência da minha vó por parte de mãe e minha mãe também e elas sempre me incentivaram quanto ao canto e quanto eu tocar violão. Mas ela meio que começou como algo, de certa forma um pouco imposto, ao contrário do que acontece com vários artistas que normalmente tem muita dificuldade em serem aceitos pelos pais em relação à arte e sua expressão. Eu gostava naquela época, quando eu era criança e tudo mais, até quando era adolescente, só que a vida me fez seguir outros rumos. E posso dizer que veio com força depois de um tempo sabático, já um pouco na fase adulta, me reencontrei de fato e aí entendi que isso era de fato minha vocação. Veio de uma forma muito natural, mas ao mesmo tempo muito intensa muito forte. Quando me despertou essa vontade de fazer música, eu votei cantando não imaginando que eu iria compor. Aí veio com força essa questão da composição. De uma forma muito natural. Foi um processo muito natural, muito caótico e muito intenso a cima de tudo.

Me Gusta: Como se dá seu processo de composição e suas inspirações?

Gabi: Depende. “Outra Razão” é meu terceiro álbum de estúdio e o processo de composição dele e de inspiração, foi um pouco diferente. Porque a composição, pelo menos pelo jeito que eu componho, é de uma forma muito intuitiva. É muito difícil eu chegar, sentar e dizer ‘ok vou gravar algo’ e utilizar de alguma técnica pra chegar na composição final, é raro eu fazer isso. Normalmente o processo começa porque de alguma forma intuitiva, vem alguma melodia na minha cabeça, ou uma frase, ou vem um verso, algum refrão e às vezes uma música inteira, verso e melodia, ou só melodia ou só letra, e eu vou tomando nota dessas coisas e vou armazenando de acordo com o momento de vida, o que tô vivendo ou do que tô ouvindo, ou quando tô entrando em contato com algum tipo de arte, tipo eu vi uma escultura, uma leitura, uma crônica ou algo que me chamou a atenção e foi forte me trás uma emoção. E a conexão é muito direta e me provoca um processo de composição espontâneo. E às vezes de repente tem alguma sonoridade que me vem e começo a compor. E pra esse disco, especialmente, como eu tinha um prazo pra entrar em estúdio e gravar, eu precisava como em todo disco ter mais canções pra você ter mais opção e até pra maturar uma composição dentro de um disco. E aí comecei muito a compor, já me definindo. Na primeira semana de Junho de 2019 já comecei a gravar o disco e aí todo dia eu acabei parando u para ouvir todas as coisas que eu já tinha externado em termos de ideias musicais, ou o que fosse, até pra eu trabalhar elas melhor ou muitas coisas novas que acabaram surgindo. Quando você começa a puxar de um lado, você ás vezes tem uma composição de dois anos atrás e que naquele momento você não tá mais conectado com aquele sentimento de alguma forma e aí você recomeça do zero, ou não totalmente do zero, porque aquela ideia te serve de repente de alguma forma porque se conecta com outra ideia nova.

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Capa do álbum “Outra Razão”

Me Gusta: Como foi escolher o repertório do álbum “Outra Razão”? E como foi a experiência de ajudar na criação dos arranjos das faixas?

Gabi: A experiência de escolher o repertório foi feita em conjunto. Eu fiz as músicas, e eu e meu diretor musical, que há algum tempo trabalha comigo aqui em Brasília, reunimos a equipe de arranjadores e os músicos multi-instrumentistas. E aí a gente junto foi fazendo o desenho dos arranjos com o Moogie, que é o produtor do disco, e com quem eu conversava toda semana. E entre os três foi a decisão. Entre as 31 músicas que eu tinha composto entre Janeiro e duas semanas antes de entrar em estúdio, acabamos em 15 e escolhemos 10 pro disco e que a gente sentiu que era essa a vibe. Não significa que as outras canções não pudessem ser utilizadas, elas podem para uma outra finalidade. Mas naquela hora, eram as que tinham uma linha em comum dentro da história que estava sendo contada no disco e abordando os aspectos da razão, que a nossa razão pode assumir. Isso aconteceu durante este período. A gente foi ouvindo e escolhendo as que faziam mais sentido. E a questão do arranjo, em me envolver, eu percebi que nesse disco, me senti mais madura pra fazer isso e era um desafio e eu entendo que a composição não é só um momento de estar sentada, com meu violão, ou só minha voz, ou o instrumento que eu tiver e tá pronta. Isso é só o começo. É um processo de tentativa e erro. E ela vai ficando madura, quando você começa a adicionar os instrumentos e começa a pensar qual o melhor timbre que vai bem na canção. Vai desde escolher a timbragem do sintetizador, a linha melódica que o baixo vai fazer, e claro, que muitas coisas foram construídas em estúdio pela experiência dos músicos que estavam participando. E pra mim o arranjo que dá riqueza e ajuda a compor a canção, foi também algo muito bacana de fazer. Pra mim isso é compor também. Eu gosto disso, de imaginar a timbragem da canção. É como se você entrasse na sua casa e decorasse de um jeito e fosse adicionando outros elementos, pra que ela fique harmônica ao todo.

Me Gusta: Como surgiu a faixa “Otra Razón” e a ideia de falar através dela sobre o Alzheimer?

Gabi: É uma música muito forte, realmente. Incialmente u fiz essa música, comecei a fazer essa música em 2017/2018 e escrevi ela de uma outra forma, não tanto na parte da letra, foi mais na parte da melodia. Por ser uma música emocionalmente difícil de cantar, muito forte, eu nessa primeira versão que fiz, não conseguia me encontrar dentro da música, talvez pela própria questão emocional. E aí, pra esse disco “Outra Razão”, eu tinha quase toda a setlist de músicas escolhido e queria colocar uma música em espanhol no disco e o Moogi também achou legal por conta das minhas origens, por eu ser uruguaia de nascimento e ter raízes fortes ainda e que me representava. Me representa o Brasil e o Uruguai, então não tinha como não colocar essa canção no disco. E como o disco estava numa linguagem Pop/Contemporânea, eu senti que se for pra entrar uma música em espanhol das que eu tenho, tinha que ser essa pela mensagem dela, mas achei que ela tinha de ser revisada em ternos de arranjo e tudo em termos de melodia e refiz a música toda e senti que realmente ela encaixou mais dessa forma. E ela tá inspirada em relação a uma pessoa muito próxima que tem o Alzheimer e foi a minha forma, na realidade, de encontrar uma maneira de poder tentar esclarecer pra pessoas o que acontece com a razão no processo de Alzheimer, o que acontece na mente da pessoa e o desaparecimento da razão. E por isso no próprio vídeo tem a questão do branco e preto e que joga certas cores que aos poucos vão desaparecendo, várias mudanças de cenas, a questão de cenário de abandono, de aridez, a terra vermelha daqui de Brasília, seca, a questão do inconsciente. Uma forma poética de trazer e procurar traduzir um pouco desse processo de perder a razão. E ao mesmo tempo tentar fazer pessoas e familiares, principalmente, que tem pessoas que convivem com essa situação e poder trazer uma leitura diferente, menos talvez sofrida, vamos dizer assim. E mesmo que o sentimento do vídeo seja forte, é tentar mostrar de uma forma lúdica, que existe uma reconstrução de conceitos e que a gente precisa levar as coisas com mais leveza e entender o processo de uma forma diferente, num outro lugar.

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Foto: João P. Teles

Me Gusta: Uma curiosidade. O que você enxerga de parecido entre a Cultura Brasileira e a Cultura Uruguaia? E em que elas se diferem?

Gabi: Depende, porque a música brasileira, a gente fala de música brasileira de quase um continente, então de acordo com cada estado a gente tem um sincretismo cultural variado e posso dizer que de similaridade, está mais próxima a cultura musical do Rio Grande do Sul com a região alí do Uruguai, da Argentina, do Rio da Prata, que são as milongas, os chamamés, o candombe (que é diferente do candomblé, o acento) e o próprio Tango, mesmo que no Sul não tenha Tango, mas na Argentina e no Uruguai têm. A raiz, do candomblé que foi trazida pelos negros e depois se proliferou através das Milongas, que são as danças populares que o pessoal ao redor das cidades dançavam e se reuniam pra isso. Assim como os movimentos muito parecidos com o Blues nos Estados Unidos, que foi se transformando no Jazz. E culturalmente falando de similaridade, é mais parecido com a música do Rio Grande do Sul. Agora, de diferenças, acho que não só no Uruguai, mas nos países da América Latina, acho que tem uma diferença em relação ao sotaque rítmico, por exemplo, numa bateria, uma percussão, o acento é um pouco diferente do que a gente usa aqui no Brasil e que também é originário da cultura e do folclore de cada país, que se constitue de uma forma um pouco diferente. No Uruguai se ouvi muita música brasileira, eu cresci ouvindo muita música brasileira, muito em relação à proximidade com o Rio Grande do Sul, porque eu morei lá e já ouvia Rita Lee e as vizinhas de porta tocando ao violão “Lança Perfume”. Minha mãe ouvia Clara Nunes, ela gostava muito do Samba.

Me Gusta: Como você tem lidado com essa adaptação necessária de fazer e mostrar a arte, durante o Isolamento Social e se reinventar?

Gabi: Na realidade, tá sendo curioso. O impacto mais imediato é logicamente ficar longe e você não poder fazer show ao vivo e que é um lado muito complicado e ruim pro artista, porque a gente que estar no palco e é muito diferente de a gente fazer um show com uma câmera, e que por mais que as pessoas interajam com você no chat, não é a mesma coisa que o olhar pras pessoas e enquanto isso não tem comparação. Acho que ainda é muito difícil de saber em médio prazo como vai ser o retorno, de como vai funcionar daqui pra frente, se mesmo que retorne em breve ou não, como vai ser fazer show, se as pessoas vão ou não se animar. Acho que já tá dando uma saturada de Lives, acho que no Brasil, a gente tem uma realidade de consumo das coisas, as vezes muito excessivo, como se fosse um ciclo, onde todo mundo tá consumindo e depois se cansa e ninguém quer mais olhar, até por sermos bombardeados toda hora de informações. Acho que ainda não dá pra saber muito como vai caminhar, o que dá é pra ver mais ou menos como as coisas vão se configurando. E o mais curioso no processo pra mim, é, por exemplo, nas Lives que estou fazendo, eu não tinha imaginado que depois de lançar o disco, eu iria fazer show a voz e violão, o show tava formatado pra ser com banda, porque o disco foi gravado com banda e em tese pra que fosse um show um pouco mais pra cima, mais dançante, etc e tal. Com as Lives, acabei adaptando nesse momento, pra fazer voz e violão, o que por um lado é bacana, por dar um ar mais intimista e é uma forma diferente de mostrar pras pessoas. Nesse sentido está sendo curioso e está sendo curioso experimentar fazer um show inteiro voz e violão, uma coisa que eu nunca fiz.

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Foto: João P. Teles

Me Gusta: Como é sua relação com os fãs? E dentro do que você puder adiantar quais os próximos passos da carreira?

Gabi: Estou me comunicando muito com os fãs pelas redes sociais, principalmente nesse momento. Eu tô muito curiosa até pra quando a gente puder voltar ao vivo, digamos assim e ver a reação física das pessoas. Até agora tem sido bem bacana a aceitação do disco, o pessoal tem curtido bastante, vira e mexe tem gente que fala de alguma música, ou comenta alguma coisa, inclusive “Otra Razón” é uma das músicas que mais tem chamado a atenção do pessoal, a “Nosense” também é outra música que as pessoas falam bastante e que é um Rock. Então esse movimento tem sido bacana e um momento de troca e é legal saber que a música ou o clipe, chega de alguma forma positiva pras pessoas e de alguma forma mexe e representa algo, o que é o mais importante, porque significa que a conexão tem sido direta e de repente da maneira que toca pra cada um é o que mais fica e o mais importante de tudo. E próximos passos, eu continuo ainda no processo de divulgação do disco, ainda tem algumas coisas pra serem divulgadas. Pra frente vai ter um documentário da gravação do disco lá em Los Angeles que vai sair ainda agora em Junho e que vai mostrar um pouco como foram as coisas, o que aconteceu lá, a gravação. E a intenção é também avaliar um pouco com cautela esse momento até pra saber os próximos passos e por enquanto o processo vai continuar virtualmente. E tem um programa no Instagram que vai ser sempre um bate papo / show que acontece uma vez por mês. O primeiro episódio foi na última quinzena de Maio, vai ter uma edição dessa Live que fiz com o Moogie, no fim do mês. A minha intensão é abordar sobre as influências no processo de composição do disco “Outra Razão”, que ele trafega por vários universos, não só da América Latina, mas por outros continentes também, digamos assim e também juntar influências e cantar e ao mesmo tempo debater e falar sobre isso, sobre o universo do que é Pop e não Pop e do que travessa nesse meandro de música popular e Pop.

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Foto: João P. Teles