Celebrando os 40 anos de carreira, Zélia Duncan lança o álbum “Pelespírito”, com músicas incríveis que refletem muito sobre o momento em que estamos vivendo. Todas foram compostas por ela ao lado do Juliano Holanda

A cantora, que é uma das mais queridas do país, reuniu a imprensa nessa terça-feira (25), pra contar detalhes sobre o novo projeto e pra falar um pouco mais de sua trajetória. O Portal Me Gusta teve o privilégio de participar e mostrar pra você o que Zélia contou pra gente.

Capa do álbum “Pelespírito”

Nome do álbum “Pelespírito”

Eu tenho tesão em escolher o nome. Eu adoro escolher nomes, mas no caso como é um álbum, no geral, eu estou mergulhada em tudo. Essa música veio assim de sopetão e eu escrevi a letra ‘vruum’, sentindo exatamente como a letra tenta descrever. Eu estava me sentindo assim. É como eu acho que a gente andou se sentindo e ainda está se sentindo nesses tempos de vazios e cheios, de pesos e desejo de ficar leve. Escrevi a letra e quando eu fui passar ela pro computador, eu já tive a vontade de juntar as duas palavras e quando eu juntei as palavras, eu escrevei pro Juliano, meu parceiro, imediatamente e falei ‘olha, eu acho que o trabalho vai chamar Pelespírito’. A gente ficou muito tocado porque é uma música extremamente emocional e esse disco todo é emocional. Mas essa música pegou bem na veia, naquela veia do coração que está doendo. Foi meio assim, então quando apareceu essa palavra com a junção no refrão de pele e espírito e quando fala tudo junto. Jamais vou conseguir separar essas palavras. Eu acho que ficou forte e criou uma identidade e um sentimento.

Gravação e produção do álbum na quarentena

Sem dúvida o maior desafio foi eu resolver gravar a minha própria voz, que eu gravei nesse laptop que eu estou falando com vocês, velhinho e ganhei uma interface e o microfone. Eu só ouvi as músicas assim (mostrando caixas de som). Eu gravava sempre em contato com o Juliano Holanda, meu parceiro e Webster Santos que assina a produção junto com a gente, e que foi um músico essencial para alinhavar as coisas, editar e tal. O meu desafio era gravar em casa, que era algo que eu nunca tinha feito e aprendi os primórdios de gravação. A maior parte das coisas eu não sei fazer, mas eu consigo me gravar hoje e consigo até regravar uma coisa ou outra. Consigo fazer o vocal e os vocais do disco eu que fiz, tanto que eu falei pros meninos que é um perigo, porque eu gravei os vocais e estou adorando gravar vocais. Tinha sempre essa brincadeira. A cena do clipe, onde aparece o Alexandre Fontanete de máscara, foi o dia em que eu fui finalmente no estúdio meses depois e estava ficando pronto e foi a primeira vez que ouvi o e isco em caixa de som. Comecei a chorar de emoção e a gente combinou que se tivesse erros tecnicamente em alguma parte da voz, a gente regravava e nenhuma voz foi refeita. Então o maior desafio que era a voz e que é um momento muito sensível de um disco de uma cantora, eu superei. A voz é meu instrumento e eu sou uma mulher de 56 anos e a voz é um instrumento que vem da face e de músculos e cavidades da cabeça e as cavidades saciais. E ainda hoje quando escuto ‘Pelespírito’, eu fico emocionada. Essa voz eu gravei me sentindo muito do jeito que eu cantei e sempre faço isso, mas dessa vez estava tudo tão literal e essas músicas nasceram juntas. Não é comum. Não é um disco em que você fala ‘gravei uma música aqui, de dois anos atrás’, foi parindo, parindo e parindo tudo junto, uma atrás da outra.

Foto: Denise Andrade

40 anos de carreira: Zélia No começo de carreira e a Zélia de hoje

Eu acho que eu estou conseguindo manter um frescor, pelo menos pessoal. Não sei se isso se traduz na minha vida, na minha discografia. Um frescor que tem haver com o amor pelo que eu faço, pelo meu ofício e a vontade de me arriscar e me desafiar, para manter esse frescor. Eu acho que hoje eu sou muito mais aventureira do que quando eu comecei. Quando eu comecei, a única coisa eu queria era cantar muito bem. Eu achava que ter um vozeirão era uma coisa muito importante é isso mudou pra mim. Acho que a coisa mais importante de um cantor, mais até do que supostamente ter um grande vozeirão, é dizer alguma coisa. Tudo bem que eu tentava dizer alguma coisa, mas para mim antes vinha a parte técnica e eu tinha muita obsessão com isso. Não que eu não tenha hoje, mas hoje a palavra pra mim é muito importante e a palavra está junto com o canto, com a expressão e tudo que eu faço pra estar em cena. Isso no meu jeito de ver, é um amadurecimento meu. É dar o valor ao todo. É o caminho, muito mais do que uma possível chegada. Pra mim é tão legal estar nesse momento onde eu gravei e foi tudo muito de uma certa maneira, minimalista pra mim. E eu sou exatamente assim e foi justamente nesse quarto que eu estou falando com vocês, que fui gravando o disco inteiro, as 15 canções. Então é esse mistério. A impressão que eu tenho é que eu fiz um monte de coisas pra poder voltar pro quarto.

O que Zélia espera que as pessoas sintam com o álbum

Isso é tão difícil de imaginar, mas é claro que a gente tem nossos desejos. Eu sempre faço um álbum, vou dizer uma coisa que pode até parecer polêmica, eu nunca faço um álbum pensando nos outros. Eu sempre faço algo muito preocupada com aquele album e aquele momento, e que ele seja mesmo o que eu quero dizer e o que me deixa satisfeita e aí sim acredito, que dessa maneira eu vou achar os que estão ao máximo nessa comigo, mesmo a partir daí. Esse álbum inteiro, até a peculiaridade de a gente estar nesse momento especialmente melancólico, misterioso e triste. É o momento de você ter que procurar, cadê minha alegria, minha vontade de viver e eu vejo isso nos meus colegas muito. Eu mesma caindo e levantando, caindo e levantando. A gente longe do palco, é uma ferida pra nós. Então quando a gente consegue fazer um álbum da maneira que a gente conseguiu, o que eu desejo é que ele console as pessoas, como ele me consolou. Porque fazer esse álbum, que a gente começou a fazer quando eu vim pra São Paulo em Março. Comecei a compor com outras pessoas, e com o Juliano deu liga e resolvi fazer um disco só com as nossas músicas. Na verdade eu estou tentando compor des que começou tudo isso, pra me perguntar coisas e pra me salvar e acho que o álbum me salvou. Não sei se é uma pretensão, mas dentro do tamanho que ele tem, espero que alguém diga ‘hoje eu vou ouvir Pelespírito, ele fala um pouco do que eu estou vivendo’. Eu gostaria que ele tivesse esse aspecto é que ele console um pouco. É o que eu desejo com esse álbum, que ele console as pessoas como ele me consolou.

Lançar Novo Disco Na Pandemia

É a parte mais difícil. Até mesmo as lives que a gente faz, tem sempre esse, que eu chamo de abismo. Depois de cada canção vem o abismo e aí você volta e começa a próxima, pra cair de novo no abismo, porque a gente está longe daquilo que define nossa profissão, que é o encontro. Eu tenho uma música que se chama ‘O Lado Bom Da Solidão’ e nesse show, quando eu conversa com a plateia eu fala, ‘o lado bom da solidão é a possibilidade de encontrar vocês’. E o álbum novo quer encontrar vocês, ele sempre vai ter esse objetivo de encontrar as pessoas. Então do jeito que a gente conseguir agora, a gente vai fazer o máximo pra esse encontro acontecer. A internet não tirou da gente a dificuldade de divulgar um álbum. A gente ainda está se descobrindo e como fazer isso. Talvez fazer assim, sem poder encontrar, esteja me dando até outras maneiras. O importante pra mim, daqui pra frente, é lidar com esse negócio do computador e a gente estar assim, acho que tem algumas vantagens. A gente está se vendo aqui e a gente não se veria se não fosse assim. E acho que isso é uma vantagem, de a gente poder se ver. Mas nada chega perto em relação ao show e ao contato com a plateia e o grande lance de te dar o frio da barriga e o nervoso. Eu já estive em uma estreia no Tom Brasil e na quinta música a luz acabou e nunca mais voltou. E esse perigo nos foi tirado, porque quando cai uma live é diferente de cair um show, onde todo mundo tá presente. É bem diferente. Essa solidão e o bode são outros. Estou feliz de poder lançar coisa nova tentando suprir, o que na verdade, nunca vai ser suprido, que é a falta do público. É como se eu estivesse alimentando nosso reencontro, que eu não sei quando vai ser.

Foto: Denise Andrade

Planos daqui pra frente

Eu não sou uma pessoa otimistazinha não. Sou um escorpião cascudo pra caramba. Otimismo mesmo, não é uma coisa que me define. Eu sou mais daquele verbo ‘esperançar’ de Paulo Freire, que pressupõe movimento e esperançar como movimento e não esperançar como uma espera simplesmente. Mas acontece que a gente está vivo e quando eu penso nisso eu penso que a gente precisa lutar. Sempre lembro de uma frase que é, ‘não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe’. Certamente tudo vai melhorar e gostaria que a minha geração saísse da lama, pra que a próxima geração faça essa revolução, porque a gente está caindo e é diferente. O Brasil nunca foi justo e sempre foi um lugar perigoso para as minorias. O Brasil sempre foi perigoso para as mulheres, mas a gente está no momento desse orgulho e da ignorância, então a gente conseguiu dentro de um país difícil, regredir e eu fico ambicionando que a gente consiga reconquistar aquele pedaço, onde a gente tava querendo sonhar com um país melhor. Acho que eu gosto do meu pessimismo. A vida é um grande bem que a gente tem e acho que o grande lance é saber que o bem que você tem, é o bem que o outro tem também. Então a vida com v maiúsculo e não a minha vidinha. A vida é o grande bem que a gente tem.

Cultura Em Tempos de Pandemia

A cultura e a arte sempre foram um acalanto pra humanidade. O mundo sem arte, não dá nem pra imaginar como a gente suportaria. Então eu digo que a gente estava exatamente no momento, em que a cultura estava totalmente desprestigiada. Eu fiquei sabendo que o tal do secretário da cultura, usa uma arma pra despachar as coisas que não tem importância nenhuma e então esse é o retrato do que a cultura é pra esse governo. A cultura, pra mim, nunca teve num governo, por exemplo, um grande um orçamento. Nós nunca tivemos tantos inimigos. Tínhamos algumas pessoas que gostavam de pensar e gostavam do artista, e agora a gente tem um pequeno exército de ignorância. Mas é sempre assim, os primeiros atingidos são sempre as minorias, os gays e logo depois a cultura. Uma das primeiras coisas que o Collor fez foi acabar com o cinema, mas o que a gente está vivendo perto do Collor, vira fada Sininho perto dessa desgraça. A cultura está assumindo um papel nessa pandemia, que na verdade, é o papel dela, o de nos consolar, fazer pensar e de nos unir. Sempre foi o papel da cultura. Nesse momento em que você não deve sair e se você não sair, é bom pra cuidar do outro, tem que achar como fazer essa ponte e aguentar você mesmo e tanto tempo sozinho.

Zélia durante a Coletiva

Música “Você, Rainha”

Primeiro de tudo eu sou mulher, então essa violência encubada acompanha a gente desde que a gente nasce e cresce. Quando você cresce um pouquinho e está com 11, 12 anos e o peito crescendo, e você vai até esquina e começa a ouvir uma piada. É isso aí, você só vai realizar um pouco depois, quando começa a ficar um pouco envergonhada e no mínimo um relato assim, todas as mulheres têm. E nessa minha vida de ativista e militante, que eu virei sem saber, fui andando pra esse lugar. Como cidadã, comecei a ler mais e dar nome às coisas que a gente passa. O assédio, é esse o nome. Assédio pode ser verbal, não só o físico. Então você começa a descobrir que perto de você, várias pessoas e várias amigas passam por isso é sofrem violência física e algumas até morrem. Aí você vai vendo o índice do Brasil e você fica tão envergonhado. Eu como mulher, fico tão envergonhada. E a gente precisa de homens envergonhados e homens feministas, pra lutarem conosco. Então essa música é muito sensível, nesse lugar. E eu ofereço para as mulheres. Essa música é pra aquelas mulheres que sofreram ou estão sofrendo e que morreram até. Por causa da pandemia especificamente, as mulheres foram trancadas com seus algoses em casa e isso teve uma consequência muito grave pra todas nós e pras crianças que presenciam coisas horríveis. Então eu só comecei a entender quando eu vim pra esse mundo, de ouvir mais e falar e entender o que é o empoderamento, o que é visibilidade e eu como uma mulher gay. Então essas coisas são muito importantes para nós, no sentido de reafirmar a nossa existência e o nosso sofrimento. Então que essa música diz que no final das contas, você é uma rainha, por mais que te botem pra baixo. Você é a rainha da sua vida e você tem que tomar a suas rédeas e saber que não está só, e pedir ajuda quando for preciso. A gente que cresceu ouvindo que em briga de marido e mulher não se mete a colher, até nisso estava errado. A gente tem que se meter a colher sim.

Conselhos À Novas Cantoras

Acho que se houvesse um critério pras coisas acontecerem, seria você realmente não abrir mão do que você gosta. Sei que é difícil e se você não compõe, o que você vai cantar vai depender muito do meio que você veio e o que você ouve. Então sempre acho que a gente deve ouvir. Acho que o artista novo, assim como o velho, principalmente o artista novo, tem que ouvir e não perder a chance de tentar. Se tem um tijolo ali, que todo mundo sobe pra cantar, suba ali e cante, se veja nessa situação. A música a cima de tudo. Fazer sucesso, a gente quer e tal, mas com o tempo a gente entende que isso é extremamente relativo. Hoje que tenho 56 anos, sei o que é o sucesso. Aquele sucesso em que as pessoas querem saber qual é a pasta de dente que você usa, eu já passei por isso mais de uma vez. Ele é gostoso, mas ele não é a sua vida. É gostoso, não vou mentir. É legal, mas legal mesmo é você ter um ofício, é você lutar por esse ofício e continuar perseguindo uma coisa que seja boa pra você e pra quem te ouve e não perder o prazer do ofício. Não colocar a ânsia do sucesso na frente do amor pelo que se faz. Isso faz sentido pra mim hoje e é realmente o que eu acredito.