Dona de mais de 1,6 bilhão de streamings, indicada a Grammy Latino, como Mulher do Ano (GQ Magazine) e destacada como líder da geração pela Revista Times, Iza lança o single “Gueto”.

A nova música faz parte do segundo álbum da cantora, com previsão de lançamento ainda para 2021 e exalta as raízes da artista carioca.

Iza no começo da semana reuniu a imprensa para uma Entrevista Coletiva Online, na qual o Portal Me Gusta teve a felicidade e o privilégio de participar. Ela contou detalhes sobre a nova música de trabalho falou um pouco do que podemos esperar do próximo disco, sobre empoderamento e orgulho de ser quem se é.

Capa do single “Gueto”

Saiba seguir o que Iza contou:

Single “Gueto”

Eu queria muito que as pessoas soubessem que “Gueto” é uma celebração de tudo que está acontecendo na minha vida e eu não podia deixar de celebrar coisas incríveis que aconteceram mesmo considerando 2020 e 2021 na nossa vida. É uma forma de celebrar de onde eu vim e todas as conquistas e todos esses contratos. Eu queria que vocês soubessem que “Gueto” não é sobre ostentação, é sobre ocupação, é sobre ser a mina preta da zona norte estampando vários comerciais, onde eu nunca tinha visto uma mina preta antes. É sobre uma alegria muito grande de tudo que está acontecendo e sabendo do lugar que eu venho. Quero também trazer esse sentimento de pertencimento pra outras pessoas.

Referências e Moda no Clipe

Eu queria muito desenhar esse gueto colorido que existia na minha cabeça e que existe. Eu sou da Olaria da zona norte do Rio de Janeiro. Eu lembro sim de um gueto colorido e bem cuidado, onde a gente não tinha medo de andar na rua e era de lei ficar lá no Domingo. E não precisava nem avisar a prefeitura, era só passar a cordinha e não passava nem um caminhão, porque estava travado. Era muito uma vontade de mostrar esse lugar e ao mesmo tempo, tornar esse lugar lúdico e editorial. Por isso que a gente tem vários cenários e acho que esse clipe é um dos mais editoriais que eu fiz, porque ao mesmo tempo que eu vim da zona norte, eu queria muito que as pessoas enxergassem suas origens ali também. Eu não queria desenhar totalmente como a Olaria, eu queria que todas as pessoas tivessem olhar também de saudosismo quando vissem o clipe. Eu queria muito que as pessoas lembrassem de coisas especiais que viveram em seus bairros. A questão do figurino é uma coisa que é muito importante. Gosto muito de moda e muito de me vestir e aprendi a me vestir assim em Olaria, da feirinha de lá . Eu ia pra lá no fim de semana e me montava com as roupas de lá. Assim que eu e minhas amigas fazíamos pras festas. Eu queria que as pessoas me vissem muito bem vestida no clipe e que todo mundo também estivesse bem vestido, porque assim é o gueto, o meu. Sei que as pessoas, cada um desenha de um jeito, mas era assim que eu via a minha vizinhança e quero muito que eles se enxerguem nesse clipe.

Mensagem de “Gueto”

Acho que significa muito abrir os olhos das pessoas que vêm desse lugar e trazer esse sentimento de significar e ter orgulho de onde eu vim. Significa pertencimento das pessoas e de ter orgulho de onde eu vim e mostrar que sim, que brota ouro de onde eu vim. Significa mostrar que o que mais faz sucesso nesse país hoje, veio do gueto sim. A gente pode não se ver na TV, mas o que as pessoas tem consumindo vem desses lugares. Acho que é sobre isso, de falar que a gente faz parte de tudo e deveríamos ocupar mais. A real é essa.

Foto: Rodolfo Magalhães

Indicação como líder da geração pela Revista Times

E acho muito doido isso. Eu sou formada em comunicação e acho que pra qualquer pessoa que soa qualquer coisa de comunicação, a cabeça explode quando você ganha uma indicação como essa. Eu me sinto muito feliz. A gente costuma dizer que não trabalha pra ganhar prêmio, nem nada, mas é óbvio que quando a gente recebe um tapinha nas costas desse, a gente vê que está no caminho certo, tudo muda. É dessa forma que eu vejo. Me sinto muito abençoada mesmo e é muito lindo receber esse reconhecimento e muito importante a gente se sentir reconhecido, principalmente no momento tão difícil de fazer a arte. A gente sente que está no caminho certo, tudo é resignificado e eu queria muito que as pessoas de certa forma, entendessem que não é legal ser exceção. Eu não quero que as coisas sejam assim, por isso que eu falei que não é sobre ostentação. É a primeira vez que eu fiquei falando de mim na música, mas não é sobre essa coisa do primeiro lugar. É uma questão mesmo de abrir as portas pra tanta gente incrível que faz diferença na arte do país e que não tem visibilidade. É muito legal quando a gente recebe uma nomeação como essa, porque acho que toda dúvida que vem na cabeça acaba sendo sanada e a gente acaba considerando que está fazendo um trabalho bonito. É muito importante, principalmente quando a gente não tem contato com o público, que é quem toma conta da gente sempre e quem segura nossa mão e abraça a gente, quando a gente tá precisando isso foi muito importante pra mim. É dessa forma que eu vejo.

Memórias de infância e do gueto

Acho que o que mais fica na minha cabeça mesmo é coisa da Copa, porque é uma coisa que eu fiz em tudo que foi subúrbio que eu morei. Isso é uma coisa que faz muito parte da gente e não entrava muito bem muito na cabeça como é que naquela época ficava liberado pintar o chão. Eu não entendia muito bem e a gente descobria um monte de vizinho que sabia desenhar e que a gente não sabia disso. Aí de repente tava todo mundo na rua pintando a bandeira mais bonita que tem no mundo. A nossa bandeira é linda e é nossa. Então eu acho que eu quis trazer muito esse sentimento de orgulho da onde a gente veio. A gente está vivendo um momento muito difícil e não podemos esquecer que o Brasil é feito de brasileiros e que nosso país é foda. Tá foda? Tá. Mas o nosso país é foda. Acho que é isso que a gente precisa lembrar, que ele é construído por nós e que a gente tem que ter orgulho de fazer parte desse lugar, por mais que nós estejamos vivendo um momento tão complicado. Amo nossa bandeira, eu amo ser brasileira e eu quero muito que as pessoas me vejam mesmo, jogada na BR, em cima da laje.

Próximo Álbum

“Gueto” é a pontinha do icebergue, é a primeira música do próximo álbum que está quase pronto. Tem várias músicas que ainda falta selecionar, não sei exatamente quais são, porque ainda estou nesse processo de construção e só vai ganhar um nome depois que eu realmente fizer todas as músicas. Mas acho que “Gueto” é uma boa introdução e tem muito do que vai rolar no álbum. Vai ter Pop, Reggae e Trap, que é uma coisa que eu gosto muito. Assim como em “Dona De Mim”, eu vou visitar vários estilos musicais, que é o que eu gosto de fazer e eu entendi que meus fãs entendem isso. Então, acho que é algo muito brasileiro, na real. Tem muito a minha cara e com certeza vai ser um álbum mais maduro.

Foto: Rodolfo Magalhães

Posicionamento

Com essa nomeação da Times é que realmente entendi que estou no caminho certo. Eu sou muito dizer pras pessoas que eu sou a bandeira, de eu estar ali sentada no horário nobre, eu sou a bandeira. Eu já estou falando muita coisa só de estar ali ocupando, então nada do que eu falo é proposital. Eu acabo falando sobre racismo, essas coisas, porque são coisas que eu vivi e eu não tenho como esconder e faz parte da vida de todos os brasileiros, não tem muito como eu fugir disso. Seria muita hipocrisia da minha parte. Não é proposital, é o que eu sei falar de de verdade. Acho que vou trazer mais da minha vivência. Infelizmente creio que vamos estar sofrendo racismo até lá, mas a gente vai continuar falando sobre isso até mudar, não tem como. Mas não acho que por conta disso vou me tornar mais politizada, eu vou me manter assim, até porque acho que essa as minhas músicas por mais que não fossem políticas, falam pra um recorte social muito grande.

Ancestralidade

Muito importante. Aprendi que não tem muito como eu falar com fluência, se eu não sei de onde eu vim. A gente se perde no meio do caminho se a gente não sabe de onde a gente veio, por isso que essa música é importante. Importante se ter muito pé no chão, na suas raízes e deixar claro pras pessoas, que debaixo da nossa trança tem muita coisa pra contar. Isso é muito mais do que eu tô vestido. Eu entendo que o nosso cabelo faz sucesso hoje, mas isso faz parte da nossa sobrevivência e a gente precisa contar a nossa história. Eu aprendi sobre tranças e eu não sabia, por exemplo, que algumas mulheres escravizadas escondiam o arroz entre as tranças pra poder alimentar as crianças em paz. Eu não aprendi isso na escola e porque não, se isso faz parte da nossa história e do meu país. Acho que a gente precisa começar a contar já que não estão falando sobre. Acho que as pessoas que tem um lugar de visibilidade deveriam considerar o que elas podem fazer em prol dessa comunidade, pra melhorar. Beyoncé me inspirou muito a falar de onde eu vim e me encorajou muito. A libertação de a gente ter orgulho de quem a gente e falar pro mundo, é mágico. Espero que o meu trabalho tenha muito esse impacto na vida de alguma pessoa, porque com certeza o trabalho dela me liberou bastante a continuar encontrando uma voz minha.

O que a Iza de hoje diria à Iza do passado

“Ah, relaxa! Não corre não, doida. Tá tudo certo”. Eu ia falar pra ela ficar muito tranquila e que tudo tem o seu tempo. Acho que eu comecei a ser muito ansiosa sem saber o que as pessoas iam achar de mim. Eu com essa pandemia entendi como procrastinar foi importante pro meu trabalho criativo e como ter paciência comigo foi importante, e como tudo acontece no tempo certo e na hora certa. Se você é uma pessoa de bem, que faz o bem pros outros, não tem como as coisas não irem bem. Então eu ia dizer para ela tirar o pé do acelerador e ir dar olhada na vista, que está tudo certo.

Foto: Rodolfo Magalhães

Com Iza se sente sendo inspiração e referência a tanta gente

Acho muito legal ouvir isso, porque eu não faço ideia. A gente artista não tem muita noção dessas coisas, eu não tenho noção. Eu escuto a minha música o tempo inteiro, não sei vocês. Eu não tenho muita noção, mas é muito bom. Tenho a noção, por exemplo, de que a minha música chega pra várias idades diferentes e isso é foda. Estar no show e ver gente de toda idade, de todo jeito, a família inteira assistindo; é ainda acreditável. Isso dá uma outra energia pro shows e isso me faz ver que eu estou mesmo no caminho certo, porque eu nunca tive a intenção. Eu sempre quis falar pro maior número de pessoas possível e fico feliz de ver como com as minhas músicas isso tem sido possível. Acho meio complicado chamar uma música de hit, porque o que é hit? Eu não sei o que é. Sei que a verdade que existe nas letras das minhas músicas tem encontrado as pessoas certas e essas pessoas que vem me levado pela minha carreira e isso é muito lindo. É muito lindo essa troca que eu tenho com os meus fãs e com as pessoas que me acompanham.

Representatividade

Acho muito importante sempre bater nessa tecla, a gente precisa se ver nos lugares, a gente precisa se ver fora daquilo que a sociedade enxerga pra gente como estereótipo. Eu, por exemplo, me sinto vitoriosa, mas estou longe de representar todas as mulheres negras, até a gente começar a ver mulheres negras gordas, por exemplo, e o que a sociedade designou especificamente pra elas. Isso vai demorar um pouco, ainda existe muita coisa pra ser resolvida e isso é só um pequeno começo. Muitas que vieram antes da gente estão trabalhando há muito tempo pra abrir as portas pra gente, e agora gente tem que trabalhar para arregaçar essa porta e deixar ela aberta. A gente precisa trazer as pessoas pra onde a gente está. Uma vez que você é exceção, estou falando dos artistas, e conseguiu, você tem a obrigação de trazer gente com você. A gente não pode ficar esperando a sociedade abrir as portas e ficaram falando como é importante representatividade. Vamos lá, a gente não pode esperar isso. A gente precisa ser vetor de mudança pra essa situação. Eu comecei a cantar com 25 anos, mas eu canto a vida inteira, desde criança, mas porque eu nunca tive coragem de fazer isso? Muito provavelmente porque eu nunca me vi na TV e quem eu vi era totalmente diferente de mim. E eu achava que não dava pra chegar, uma hora você acha que não dá mesmo. Se você não se vê nos lugares, você acha que não vai dar. Isso precisa mudar. Quando lancei ‘Pesadão’, as pessoas perguntavam porque só tinha negros no clipe. E eu vou continuar colocando só negros, até as pessoas pararem de comentar isso e até deixar de parecer que é anormal. A gente tem obrigação de trabalhar essa ocupação também.

Mensagem com o single “Gueto”

É pra eu não esquecer das minhas origens. Quando eu digo que eu estou no plim, plim, que eu estou na Globo – todo mundo já viu aquele cartaz de ‘mãe eu tô na Globo – não é sobre a Globo e eu estar lá, é sobre uma mulher negra estar lá. Quando eu falo de contrato, eu não falo de só eu assinar, é sobre a mudança social que essa empresa resolveu fazer dentro dela. Todas as vezes que eu sou contratada por uma empresa, sim, a empresa sofre mudanças internas e isso é uma coisa que é necessária. É sobre você saber pra onde está indo e deixar sempre a porta aberta para que as pessoas possam ocupar e sentar à mesa com você também. Que as pessoas tenham orgulho do pertencimento e que elas lembrem de onde elas são. Que elas saibam que brota ouro de onde elas são e que elas podem sair dali e serem o que elas quiserem na vida, sempre carregando o lugar de onde vieram no coração. Acho que é isso que vai fazer você ter público, sucesso e reconhecimento de verdade. É você ser de verdade, trabalhando duro e sabendo de onde você veio.

Foto: Rodolfo Magalhães

Gravação do clipe

O clipe foi gravado em três dias. 14 e13 de Maio em São Paulo e 17 de Maio no Rio de Janeiro. No dia 17 foi na Igreja da Peenha e nos outros dias numa fábrica e essa foi a maior dificuldade. Como eu queria que “Gueto” falasse de rua, eu precisava de uma rua e eu não queria de jeito nenhum gravar numa rua, em um lugar público, porque por mais que faça teste em todo mundo e feche o perímetro, quando tem gente famosa no meio, as pessoas ficam em volta e fica todo mundo em volta e a galera sem máscara mesmo. A música já estava pronta desde Outubro do ano passado e eu fiquei adiando, adiando até a gente encontrar um lugar perfeito que foi aqui em São Paulo e a gente fechou essa fábrica e consegui fazer todos os cenários lá, menos o da Igreja da Penha. Na verdade foi a pandemia o maior questão. E fazer tudo com muita segurança e com o melhor teste com todo mundo fica tudo mais caro de produzir na pandemia e o valor do clipe muda muito. Pra que a gente conseguisse ter segurança pra todo mundo, fizemos bastante pré -produção. A adaptação pra esse momento de pandemia foi bem desafiador.

Ludmilla e Sam Smith

Eu ia amar fazer uma música com a Lud. Ela já canta muito antes de eu ter começado a cantar e acho muito importante dizer, que ela é, na minha opinião, a maior cantora negra do país. Sou muito apaixonada pelo trabalho dela e ela é uma mulher que me inspira muito. E fazer música com ela, já estamos conversando sobre isso. Mas o Sam Smith foi um grande delírio coletivo. O que aconteceu é que ele me seguiu na semana do lançamento e aí eu mudei a foto e o homem me muda a foto junto, pelo amor de Deus! Eu fiquei morrendo de medo que esse homem tivesse achando que eu estava copiando ele e que ele ia parar de me seguir. Se você entrasse no Instagram dele, só tinha ele e eu, porque o brasileiro não tem limites. Todo mundo estava marcando aquele homem e algum momento ele deve ter me achado. Ele estava me seguindo mesmo e seria uma honra fazer feat com ele. Essa história toda foi só uma grande coincidência que eu amei e que me mostrou que eu quero muito fazer uma parceria com ele, mas foi apenas especulação.

Isolamento na Pandemia

Acho que eu tive tempo de olhar e dizer ‘poxa quanta coisa incrível que aconteceu’. Porque enquanto você está trabalhando, você não tem tempo de assimilar tudo e os presentes que estão rolando de bonito na sua vida. Então teve isso de eu poder parar e olhar tudo que foi construído, até o início 2020. A gente quando está na estrada e está trabalhando, tem uma facilidade de esquecer os nossos problemas. Mesmo que eu não estivesse me sentindo bem, tinha sempre gente ali aplaudindo. Você acordou ali horrorosa e cheia de remela na rua, mas tem gente que vê você pela primeira vez e fala ‘meu Deus como você está maravilhosa”. Você esquece as coisas quando você vai trocando carinho com as pessoas e você vai achando que está tudo bem. E aí chegou o momento em que estava só eu em casa, sem cílios postiços e sem aplique tendo só eu e o espelho. Eu tive que olhar só pra mim e me ver com todas as minhas inseguranças e me ver com tudo aquilo que eu estava empurrando pra debaixo do tapete. Eu sempre fui minha maior inimiga e durante a pandemia tive tempo pra encarar esses monstros e tentar me curar disso e foi muito importante pro meu álbum, por exemplo, porque até me entender comigo mesma, eu não estava conseguindo. E agora está rolando. Estou feliz.

Foto: Rodolfo Magalhães

Próximos Passos

Estou focada agora em lançar esse meu trabalho e buscar soluções audiovisuais pra galera, porque show só em 2022 mesmo, eu tenho certeza que não vou conseguir fazer esse ano. Como a gente sempre tem show de lançamento e essas coisas, eu estou pensando em formas criativas para entregar esse conteúdo criativo pra galera, porque não quero deixar de fazer. Estou me preocupando agora muito com esse novo álbum e essa expectativa do lançamento e de como eu vou entregar pra vocês. Estou pensando muito no agora e eu espero realmente que isso tudo passe e que ano que vem a gente se veja logo. Eu quero muito encontrar todo mundo logo, em breve.

Iza durante a Coletiva Online