O rapper Malammore apresenta um retrato profundo sobre identidade em seu álbum de estreia “Aurora”.
A estreia do rapper, cantor, compositor e produtor nascido em Lisboa (PT), é uma narrativa autobiográfica sobre a experiência de ser um jovem negro, a dificuldade de pertencimento e a resistência cultural no seu país de origem. As letras versam sobre temas como amor, adoção, reflexões sobre a humanidade e a forma como o artista enxerga o seu lugar. “A ideia do álbum surgiu a partir de um caderno meu repleto de poemas, histórias e a forma como eu me vejo neste mundo. É um testemunho da experiência negra em Portugal, do pertencimento e da alienação. Do amor e da perda”, explica o cantor.

Malammore, nome artístico de Sandro Feliciano, nascido em 2005, viveu dois anos sob a tutela do Estado português, até ser adotado em 2008 (data que dá nome à segunda faixa do disco), momento que marcou uma virada de chave em sua vida. Em “Aurora”, o músico utiliza como um dos conceitos centrais a ressignificação da visão do “buraco negro”, invertendo a metáfora para “buraco branco do mundo”, representação de um universo que apaga identidades. Ao preenchê-lo com a ideia de negritude, ele desafia narrativas dominantes e reestrutura o olhar sobre os corpos negros na sociedade.
O som mistura Hip Hop, Rap, Trap e Spoken Word, a música falada, rompendo barreiras estilísticas. O artista traz como inspiração para o tom político presente nas faixas figuras como Malcom X, Muhammad Ali, Angela Davis e Fela Kuti. O álbum foi gravado na Lisbon Sound Society, com produção, mixagem e masterização de No Icon (Rodrigo Fernandes).

A arte de capa do disco, intitulada “Pulverizador de Visões”, é do artista Marcos Barreira, e busca retratar o artista com um frasco de perfume. “A ideia é que este álbum que sai da minha cabeça é como um perfume que vai borrifando rimas e conceitos para quem ouve”, divide Malammore.

Faixa a faixa por Malammore:
Inter: “No interlúdio, me apresento enquanto artista, explorando o impacto que a arte tem em mim e as influências que me moldaram. É um percurso solitário e tumultuoso, narrado num tom político, revolucionário e intempestivo. Admito que preferia o amor ao ódio, mas o interlúdio termina com a sensação de que um conflito sem precedentes se avizinha”
2008: “Essa música relata a história do meu processo de adoção. Fala sobre o desconhecimento de um bebê adotado e as questões que vão surgindo ao longo dos anos: a origem, as raízes, a identidade. É um mergulho profundo num processo psicológico repleto de memórias falsas e reconstruções inconscientes”
Não Quero Que Chores: “Uma homenagem aos meus pais, por tudo o que me deram – cultura, educação, proteção. Durante 15 anos, conseguiram me blindar contra uma sociedade racista, permitindo que eu crescesse sem que a minha cor definisse todas as minhas vivências. Esta música reflete o momento em que a independência chegou e, com ela, a constatação de que a minha negritude se tornava o foco da minha existência, se sobrepondo a qualquer outra característica minha”

Dia 26: “O dia 26 marca o fim de um relacionamento. Nessa canção relato um amor interrompido pela necessidade de me encontrar. Fala sobre uma experiência de prazer e felicidade que nunca chegou a ser plena, me levando a uma decisão inevitável”
Tudo Passa: “Um conjunto de reflexões sobre mim e sobre o impacto do mundo nas minhas ações. Luto diariamente para não ceder ao populismo e para encontrar um distanciamento da mídia, numa busca renascentista por um pensamento mais livre. Esta canção é um alerta para uma sociedade cada vez mais entorpecida e incapaz de valorizar a arte”
Olhar Assim: “Uma nova fase. Um olhar mais sorridente. Alguém novo entrou na minha vida e trouxe paz, preencheu um vazio. Ao mesmo tempo, essa canção é uma crítica a quem se incomoda com a felicidade dos outros e à banalização da intromissão na vida alheia. Vivemos numa exposição constante, onde a inveja e o ódio muitas vezes se sobrepõem à empatia”
Bela Cinderela: “Uma conversa íntima que culmina numa saída à noite para a Tasca da Bela, em Alfama, Lisboa. Uma canção sobre desejos, peculiaridades e declarações de amor.”
Raging Bull: “Uma homenagem ao filme de Martin Scorsese e à música ‘La chanson des vieux amants’, de Jacques Brel. Tal como essas obras, a canção fala sobre o amor como um jogo de sorte e azar – um cassino a céu aberto, onde se aposta o futuro de um casal”
Aurora: “Uma reflexão póstuma sobre a minha primeira experiência com a morte. Como lidamos com a perda? Como ela nos molda ao longo da vida? Aurora é um lamento, mas também um renascer. Representa a aceitação das contradições da existência, o fim de um ciclo e o início de outros que virão”

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