Raidol lançou o EP “Todas As Mensagens Que Nunca Te Enviei”, que marca o primeiro projeto da artista no ano, dando continuidade à narrativa iniciada em lançamentos anteriores. As canções mostram parte de experiências pessoais e histórias de amor que não foram verbalizadas no momento em que aconteceram.
O Portal Me Gusta teve a felicidade e o privilégio de entrevistar esta cantora tão inspiradora e talentosa. A seguir, confira tudo o que ela nos contou, na íntegra:
Portal Me Gusta: Como surgiu seu amor pela música?
Raidol: Eu acho que o amor pela música surgiu de uma forma muito natural, porque meu pai é músico da noite, de Belém, a mãe dele era cantora na época do rádio. Então, isso sempre teve muito presente na minha vida, teve muito intrínseco em quem eu era e eu sempre tive um aparato de coisas muito legais em casa. De vinis de diferentes artistas, tanto paraenses quanto brasileiros principalmente. Eu acho que esse é o primeiro contato, esse primeiro amor. Dentro dos saraus que eu ia, dos amigos do meu pai, estar dentro desse meio cultural desde criança foi um grande incentivo. Só que demorou para eu me tocar, que poderia ser um ofício, que eu poderia tornar isso uma parte muito importante da minha vida. Precisei fazer faculdade, me formar e aí mudar urgente depois disso.
Me Gusta: Você foi indicada ao prêmio multishow em 2024 e cantou no The Town 2025. Como foram essas experiências e a importância delas?
Raidol: Ah, são experiências muito maravilhosas, né? Eu uma travesti representando a Amazônia, representando o pop amazônico, que é o estilo de música que eu faço, e estando em dois lugares com muita luta e muita batalha, porque Prêmio Multishow e The Town foram espaços muito importantes de serem ocupados. E não foi fácil, foi muita dedicação, foi muito incentivo, foi muito investimento de uma galera que tá comigo. É a realização de sonhos. Eu acho que se eu olhasse pra trás e visse aquela cantora, que na época era um cantor, em 2018 eu acho que ele não imaginaria o que a vida dele se tornaria e nem imaginaria que ele ia tocar no The Town, por exemplo, que realmente trouxe a validação do meu pai. Então foram experiências muito importantes na minha vida que foram confirmações de coisas.
Me Gusta: Como foi escolher o repertório do EP “Todas As Mensagens Que Nunca Te Enviei”?
Raidol: Então eu me inspirei em grandes mulheres da música brasileira, que são grandes intérpretes e que têm um trabalho de curadoria muito legal dentro das obras que lançaram ao longo de todos os anos, como Elis, Maria Bethânia, Fafá de Belém. Então eu decidi achar histórias que eu já vivi, coisas que eu não consegui contar, eu queria contar, mas através de palavras que não foram escritas por mim. Então a primeira música vem de Manaus, foi uma música que ganhei de presente do Bruno Matos, e é uma música linda que fala sobre uma paixão, uma pessoa avassaladora na vida desse seu lírico. A segunda faixa é uma composição minha e da Amanda de Paula, que é uma artista daqui de Belém. E a terceira faixa já é uma composição só da Amanda de Paula que eu fiz encomendando. Falei, amiga, eu queria que você fizesse uma música sobre uma história que eu vivi desse jeito. Então, ao contrário do que muita gente acha que esse projeto é para uma pessoa só, na verdade é para várias, sabe? Para várias pessoas que eu já me relacionei, várias histórias de amor que eu já vivi, onde eu fui vilã, onde eu fui mocinha. Diferentes papéis, sabe? Então, são coisas que eu acho que todo mundo pode se identificar porque todo mundo já teve alguma história de amor que não conseguiu dizer tudo aquilo que queria dizer. Seja para o bom ou para o ruim.

Me Gusta: Você representa tanto as pessoas da comunidade LGBTQIAP+ (como eu, por exemplo) e a toda comunidade trans. Como você se sente podendo dar voz a tanta gente?
Raidol: Ah, eu acho que eu ocupo uma nova era, sabe? Uma nova era da sociedade, da música brasileira. Eu acho que quando eu tinha 15 anos, a gente tinha muitas pessoas trans na luta fazendo corre. Mas hoje a gente vê muitas pessoas trans serem reconhecidas nacionalmente, fazendo a sua música, né, como a Urias, como o Liniker, como Linn, como a Assucena, como Jaloo. Então, eu acho que é muito importante a gente estar ocupando esses espaços porque nós ainda somos poucas comparado à quantidade que tem por aí, sabe? Eu acho que a gente está abrindo a porta e deixando ela escancarada, como a Urias diz na música dela. Então, eu me sinto muito contente de estar representando esse novo tempo da música brasileira, esse novo tempo da sociedade, porque ao mesmo tempo que tem muita coisa ruim, tá rolando muita coisa boa. Eu acho que nós fazemos parte disso. Acho que a gente nasce da contemporaneidade desse tempo e nós somos talentosas, excelentes e diferentes. E eu falo nós todos, assim, desde as manas aos manos, como Fitti, Flor de Mururé, Iris da selva e por aí vai, somos muitas pessoas. E é muito legal ser uma dessas porta-vozes, mas que está tentando dividir esse holofote com o máximo de outras de nós.
Me Gusta: Como tem sido sua relação com seu público?
Raidol: Ah, meu público é maravilhoso. Eu acho que nesse momento da minha vida, depois de alguns anos de carreira, eu estabeleci uma base em Belém, que é a minha cidade natal, capital do Pará. E as pessoas vão nos meus shows sabendo as minhas músicas, cobrando músicas que não estão no set. Eu pedindo para elas cantarem, eu só ouvindo e a banda tocando, rola também. É muito legal, já sai pra algum lugar e as pessoas falarem comigo, algumas pessoas, “nossa, tu cantas muito bem”, “nossa, tua música é linda”. Isso é muito legal. E aí eu acho que pra poder sair daqui, que é um novo passo, mudar, abranger um pouquinho os ares; isso só tem como acontecer se essa minha base estiver fortalecida. Eu acho que a gente tá fortalecido, tá caminhando pra isso, sabe?

Me Gusta: Você também é produtora musical. Como é a experiência de poder produzir tantos artistas, e até a si mesma? Tem muita diferença produzir você e outros artistas?
Raidol: Eu sou produtora de tanta coisa, porque eu faço produção artística, backstage, produção executiva, eu produzo set de filmagem, de campanha, faço eventos como o Festival SeRasgum, Festival Lambateria, Festival de Música Amazônica, circuito Manacaos em Manaus. E ao mesmo tempo sou curadora, né? Porque eu fui curadora do Edital Natura Musical ano passado. Tem uma conexão maravilhosa com a Amazônia, com todas as Amazônias, né? As Amazônias brasileiras, a Amazonia Legal, que é o Norte inteiro mais o Maranhão e Mato Grosso. E comecei a me conectar com artistas da Venezuela, da Colômbia, que fazem parte desse outro lado amazônico. E assim, é muito difícil. Porque às vezes eu acabo focando muito em toda a produção que eu tenho para fazer e esqueço um pouco da artista. E aí isso é uma coisa que agora eu tenho buscado ir atrás de fomentar as redes, investir na imagem, fazer essas coisas que tem que ser feitas, porque não é só sobre talento, é sobre planejamento e investimento. Mas ao mesmo tempo é muito legal conseguir produzir tanta coisa diferente, porque isso me dá um 360. E eu também produzo artistas, né? Eu tenho uma empresa chamada Toró Produções, que é minha e do meu sócio Gustavo Moreira. E a Toró faz diferentes braços da produção cultural, desde a produção de eventos, como eu falei anteriormente, a produção de campanhas, filmes que já é mais o que eu faço, shows. E a gente gerencia a carreira de alguns artistas, como Valéria Paiva do Fruto Sensual, Jeff Moraes, Naieme que tá no musical da Fafá de Belém, Malu Guedelha, Tiffany Boo, que é uma drag queen que canta brega, nossa, enfim, Ruann Lins, Juca Culatra.
E é muito legal estar ajudando essas pessoas a escrever projetos, a passar em editais e fazer com que elas apareçam no digital, apareçam na cena musical. Por exemplo, a primeira coletânea que a Tiffany Boo lançou na carreira dela, foi depois da parceria dela com a Toró. Ruann Lins, o primeiro projeto dele, que foi o EP, foi parceria com a Toró. Valéria Paiva, que é a rainha das aparelhagens, diz que o melhor show que ela teve na vida dela foi um show que nós produzimos, que foi Val canta Gal, que era só ela cantando Gal Costa. Então assim, é muito legal porque eu acho que a gente fomenta a cena, fomenta a cultura, fomenta uma economia criativa, sabe? Faz com que circule grana nesse meio. E isso é muito simbólico, porque isso é feito por um boy com uma cabeça incrivel, que é o meu sócio, e por uma travesti. E essa junção deu muito certo.
E se tem muita diferença entre os artistas que produzimos? Tem, porque esses artistas são completamente diferentes entre si. A gente só pega artistas que a gente não tenha outro que faça algo parecido. Então, por exemplo, a Malu Guedelha para mim vai ser a nova voz da música brasileira. Ela é uma coisa Marisa Monte, Marina Sena, e Malu, muito Malu. Tiffany Boo que é uma drag queen que faz technobrega. Aí nós temos o Juca Culatra, que já veio da cena mais antiga, que canta reggae, canta rock. Valéria Paiva, Rainha das Aparelhagens, uma mulher que tem mais de 600 músicas assim registradas. Naieme, que é um grande expoente da geração daqui, que ela canta um uma MPB mais originária das coisas daqui como a ilha do Marajó, a cultura marajoara. Aí eu vou para Marara Kelly, que é uma cantora que faz uma parada meio Björk, que é paraense, mas mora na Suíça. Tem Ruann Lins, que já é uma vibe latino-america. Sandrinha Eletrizante, que já é Brega e Forró e Jeff Moraes, que já faz um um pop afro-amazônico. Jeff é o que a gente mais se assemelha a mim, Mas eu produzo igual, pesquiso editais próprios para cada um desses artistas. E é isso.

Me Gusta: Dentro do que você puder contar. Quais são os próximos passos da carreira?
Raidol: Meu bem, antes de responder tua última pergunta, muito obrigada pelo espaço. Muito obrigada pela entrevista. Espero que tu tenhas gostado do que tu ouvistes. Se tu ainda não escutaste, escuta porque o pop amazônico é um movimento muito bonito que está acontecendo agora em toda a Amazônia, que junta a tecnologia e a cultura que a gente tem aqui, que é uma cultura ancestral. Então é um outro Brasil e vale muito a pena.
Meus próximos passos… eu vou lançar mais um EP. Esse vai ser produzido pelo Félix Robatto, que é um produtor que já ganhou um Grammy por produzir o disco que Gaby Amarantos ganhou o Grammy também. E é um ep de pop amazônico, mas voltado pros países em volta, pro que tem perto da gente, sabe?
Pro Caribe, para o Suriname, para a Guiana, para a Venezuela, que tem tudo a ver com o que a gente escuta aqui no Pará. Então, eu acho que eu posso dizer isso, porque pós esse esse próximo lançamento, eu encerro um ciclo e começo a preparar um novo momento na minha vida, que é essa feitura de um segundo disco, que ainda não tem nome, não tem nada, não tem verba.
É só essa ideia de que acabando esse segundo EP que eu ainda lanço esse ano, eu encerro um momento na minha carreira, começo a pensar nesse segundo ato. E esse momento que eu tô encerrando, ele se inicia no lançamento do meu primeiro disco, que é o Mandinga pela Natura Musical. Então, meio que é isso. Obrigada, Axé para nós

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