Simone apresenta “Jardim”, releitura do clássico de Henri Salvador.
Originalmente eternizada por Henri, agora reinventada sob a direção musical e os arranjos de Marcos Valle, a canção ganha uma nova roupagem sonora ao ser transformada em um mambo elétrico, combinando sofisticação, frescor e a energia rítmica característica do músico carioca. A faixa faz parte do álbum “Henri Salvador do Brasil”, um tributo ao cantor, compositor e guitarrista de Jazz. Nascido na Guiana Francesa, ele construiu uma carreira lendária na França. Conhecido por sua voz suave e bom humor, ele é muito lembrado no Brasil por sua forte ligação com a Bossa Nova. O álbum completo será lançado no dia 26 de junho, e já está disponível para pré-venda.
Se há um papel que Henri Salvador nunca desempenhou, foi o de ícone pop. Introdutor da biguine moderna em 1950, guitarrista de Jazz, pioneiro do Rock na França ao lado de Boris Vian, Henri, o sul-americano (da Guiana Francesa), reencontra o foco de sua inspiração com Chambre avec vue (2000), álbum para o qual Keren Ann e Benjamin Biolay lhe oferecem, entre outras, “Jardin d’hiver”. Henri Salvador se apropria dessa canção para transformá-la em uma deliciosa bossa nova suave, de elegância intimista e sutil.

Foi, portanto, audacioso confiar a releitura de Salvador a Marcos Valle, referência do Jazz-Funk feito no Rio. Carioca de raiz, tão adepto do Surfe quanto Henri era da petanca, Marcos Valle foi, no entanto, nomeado arranjador e diretor musical deste Salvador do Brasil, mais do que um álbum, um projeto multifacetado, relembrar os talentos melódicos de Henri Salvador, evidenciar sua proximidade com o Brasil, insuflar uma energia americana (do norte e do sul) em canções francesas patrimoniais, entre outros.
Marcos Valle reinventou com elegância onze canções “salvadorianas”, escolhidas desde as primeiras, de 1948, até aquelas do período “bossa” dos anos 2000. Como bônus, há uma inédita, Je parie, um hino ao Corcovado, a Paris e ao amor, interpretado por Paula Morelenbaum, com a voz de Henri ao fundo. Influenciada pelos sons da pop californiana, a “marca” de Marcos Valle se reconhece no uso de sintetizadores, aéreos e brilhantes, e na energia incisiva na mistura de ritmos. Assim se dá a transformação de Jardim (Jardins d’hiver) em um mambo elétrico, interpretado por Simone, ícone pop.
Cabelos longos, camisa florida, frescor eterno, Marcos Valle não teve dificuldade em reunir uma constelação de artistas emblemáticos – de Seu Jorge a Bebel Gilberto, passando por Moreno Veloso, Rogê, Simone e Zélia Duncan, até Zé Ibarra, nova estrela, nascido em 1996. Porque era ele (Marcos) e ele (Henri do Brasil).
Após o lançamento, em 1959, do álbum fundador da bossa nova, Chega da Saudade, de João Gilberto, surgiu uma segunda geração de músicos oriundos dessa revolução modernista. Após o golpe militar de 1964, Marcos Valle, nascido em 1943, junta-se a Sergio Mendes, refugiado em Los Angeles, e ao seu grupo Brasil’s 65. Na voz de Wanda Sá, eles apresentam uma versão em inglês de “Samba de Verão”, composta em 1964 com seu irmão – So Nice torna-se um sucesso mundial. Marcos Valle colabora depois com o cantor soul Leon Ware (Estrelar, 1983). Hoje, é um dos músicos brasileiros mais sampleados do mundo por DJs e rappers.
Para selar a união entre Salvador e Marcos Valle, era preciso um mediador. Foi Emmanuel de Ryckel, um belga apaixonado por Ipanema e sua música. Ele guarda na memória uma noite de 2006, no Rio. Nessa ocasião, conhece Henri Salvador, assim como Alain Artaud, o produtor que convidou Henri a gravar o álbum Révérence no Brasil e que se tornou parceiro deste projeto. Após Chambre avec vue e Ma chère et tendre (2004), o vínculo com o Brasil continua: o presidente Lula o condecora (grã-cruz), o ministro da Cultura (Gilberto Gil) pega o violão. Há uma festa, com a elite da bossa nova.
De passagem, Marcos Valle presta homenagem e cantarola “Rose”, uma canção de 1958, ao lado de um Salvador bem-humorado. Não há acaso. Nascido no país vizinho, a Guiana, de pais guadalupenses, Henri Salvador (1917-2008) chega ao Brasil pela primeira vez em 1942, recrutado na Croisette por Ray Ventura, forçado ao exílio pelas leis antijudaicas. Sobre o jovem guitarrista, Ventura diz: “Com esse mulato, tudo é luxo”.
Eles estão no Rio, cidade então apaixonada por crooners de vozes melosas. A orquestra Les Collégiens toca um swing alegre. As burguesas de peles e os playboys do Cassino da Urca “torcem o nariz”, segundo Henri, que conquista o público ao fazê-los rir. Ventura parte para os Estados Unidos; ele fica. Sem dinheiro, mas apaixonado pelo país, vive ali por quatro anos e constrói sua reputação.
De volta à França em 1948, Salvador triunfa com “Maladie d’amour”, um tema tradicional criado por sua tia, a cantora de biguine Leona Gabriel. Marcos Valle confiou a canção a Rogê, mestre do samba-funk, e a Féfé. Em 1950, com letras de Maurice Pon, Henri compõe “Le Loup, la biche et le chevalier” (Une chanson douce), inspirado por sua mãe afro-indígena, Antonine Paterne. Bebel Gilberto, musa da electro-bossa, acelera o ritmo.
Em 1959, Henri se diverte com amigos como Boris Vian, Quincy Jones e Eddy Barclay compondo “À Cannes cet été”. Eddy Mitchell, que a regravou em 2011, oferece agora uma versão languidamente orquestrada com Zélia Duncan, de voz flexível e potente.
Em 1959, Salvador está longe do Brasil, mas o Brasil o acolhe. E como não se pode fazer tudo (exceto talvez um volume II), não encontramos neste Salvador do Brasil a canção que transformou o francês em herói brasileiro: “Dans mon île”. Composta em 1958 (novamente com Maurice Pon), ilustra um docuficção de baixa qualidade, Europa di Notte, exibido em 1959 em um cinema de Copacabana frequentado por dois jovens apaixonados, Roberto Menescal e Nara Leão. Figuras de destaque do modernismo da bossa, eles decoram a canção. Tom Jobim toma conhecimento. Brincalhão por natureza, ele dirá: “Henri Salvador inventou a bossa nova”. Em 1981, o tropicalista Caetano Veloso regrava “Dans mon île” e diz que Salvador é “imenso”.
Henri Salvador tinha seus letristas favoritos, como Maurice Pon (“Et des Mandolines”, 1974, na voz de Dora Morelenbaum), mas também Bernard Michel (“Pauvre Jésus Christ”, 1972, Rose com Marcos Valle e Joyce Moreno). Marcos Valle considerou que algumas interpretações mereciam ser apresentadas com letras em português. A tarefa foi confiada a Lucas Santtana, artista brasileiro radicado na França. É em português que Seu Jorge transforma a muito política “Les voleurs d’eau” em uma afro-samba arranjada como um bom rum. Mas é em francês que Zé Ibarra nos leva em seu vagão: “É bonito a França, quando não se tem pressa”, em estilo music-hall.
E assim embarcamos em uma viagem de onze canções, criadas por um especialista no ócio e revisitadas por um Brasil entusiasmado e ardente.

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