O Detonautas Roque Clube regravou “Racismo é Burrice” de Gabriel, o Pensador com participação do rapper e algumas adaptações na letra.

Contra o preconceito racial e atual, esta canção é mais uma com cunho político e social, algo que a banda vem trazendo desde Agosto em suas canções.

Foto: Bruno Kaiuca

O Portal Me Gusta teve o privilégio de entrevistar o vocalista da banda, Tico Santa Cruz que contou um pouco mais sobre o single, suas faixas mais recentes, composição, Rock e próximos passos.

Fique por dentro do que Tico nos contou, na íntegra:

Portal Me Gusta: Como surgiu a ideia de regravar “Racismo é Burrice” e como foi contar com a participação do Gabriel?

Tico Santa Cruz: A ideia de regravar “Racismo é Burrice”, foi por conta de uma música que foi regravada pelo Jonga, Coruja, KLJ e Dexter chamada “Voz Ativa”, que é dos Racionais dos anos 90 e achei a releitura deles muito boa. Aí pensei em uma música que a gente pudesse fazer uma releitura, e como a gente tá muito inserido nessa questão do debate sobre questões raciais, lembrei da música do Gabriel e achei que essa música ficaria muito boa dentro do contexto atual, trazendo e mostrando que esse assunto já era debatido lá atrás. Era uma época onde eu era muito novo, mas já andava com o Gabriel e a galera toda do Hip Hop aqui do Rio. Então é uma música que tem uma história interessante e a gente adaptou ela em alguns trechos, pra poder ficar mais próximo do discurso, que é um discurso atual. Eu pontuei a música toda para falar da questão do racismo estrutural e achei que ficou bem legal a nossa forma de regravar e o Gabriel gostou quando a gente mostrou pra ele. Ele chamou e falou ‘eu queria participar’. Ele gostou tanto que quis participar e aí foi muito bom ter o Gabriel junto da gente, porque endossou ainda mais essa mensagem, que acho que é uma visão de todos nós, que somos de pele clara, brancs, enfim, e que temos a consciência de que é preciso combater o racismo estrutural.

Me Gusta: Como se dá o processo de composição das canções da banda e as inspirações?

Tico: O processo de composição das canções é muito intuitivo, depende do momento. E durante a pandemia, por exemplo, eu compus muito. A gente tá com um disco inteiro sendo lançado agora, e que começou a ser escrito em Agosto do ano passad. Antes de Agosto eu praticamente compus um disco inteiro e o Detonautas gravou. A gente gravou e produziu com o Marcelo Sussekind. Então tem um disco inédito aí, que tá prontinho e que foi feito todo nesse período da pandemia. E o processo é muito fora de regra, não tem uma forma definida, é intuitivo. Quando eu sinto, ou alguém me manda uma música, ou uma base, ou alguma coisa, enfim. É uma maneira de deixar fluir.

Foto: Bruno Kaiuca

Me Gusta: Vocês ultimamente estão fazendo algo muito importante, que é através da música questionar a política e ajudar a combater o preconceito (de todo tipo). Como surgiu essa leva de canções e como tem sido a repercussão e importância?

Tico: Essas músicas são reflexos do momento que estamos vivendo. Porém o Detonautas sempre se posicionou musicalmente e não só musicalmente, mas também como artistas. Desde o primeiro disco em 2002 que tem “Ladrão De Gravata”, depois no de 2004 você vai encontrar “O Dia Que Não Terminou” que tem uma questão social e vai encontrar “O Mercador Das Almas” que é uma questão política. No disco “Psicodelia, Amor, Sexo e Distração” também estão canções que falam de política, talvez de forma não tão explícita, mas tem, como “Prosseguir”, que fala de opressão, mentiras e de verdades que são ditas como absolutas, mas não são verdades, pelo menos na nossa percepção. No “Retorno De Saturno” tem “Quanto Houver” que é uma música que fala de questões políticas e sociais que são permanentes na narrativa da construção social e histórica brasileira. No “Acústico” tem “Até Quando Esperar” e outras músicas que são músicas que também abordam. Ou seja, o Detonautas sempre falou de política e esse disco é mais explícito, talvez por conta do momento que exige uma atitude mais explícita de posicionamento em relação a esses temas. Então, a repercussão tem sido boa e a gente conseguiu entrar num lugar do mercado que tava vazio, porque não tem ninguém do Rock falando sobre esses temas, pelo menos não no meanstream. E até para a classe artística mesmo tá meio complicado. Tirando a galera do Rap e do Funk que se posiciona, Pop, Sertanejo, Samba, Pagode, Axé e outros artistas, não têm se posicionado musicalmente falando. Então é um viés que a gente encontrou e que é um viés natural da banda, para gente se manifestar historicamente sobre esse momento.

Me Gusta: Nesses anos todos de carreira, como você vê a evolução do Detonautas de começo de carreira e o Detonautas de hoje dia?

Tico: O Detonautas amadureceu musicalmente, amadureceu internamente, amadureceu liricamente. Eu amadureci como compositor, como ser humano, como homem e como artista e os meus companheiros de banda também. E acho que hoje a gente tem muito mais capacidade de falar sobre alguns temas, de se posicionar sobre algumas questões, de fazer músicas e entrevistas, enfim, maneiras de se expressar e acho que se tornaram mais eficientes. Isso é fruto obviamente, da nossa insistência em estar sempre aprendendo e estar sempre aberto às críticas e estar circulando entre outros estilos, pra poder conhecer e abordar músicas de outras maneiras. Acho que o Detonautas, hoje em dia, é uma banda que tem muitas características positivas, tanto musicalmente falando, como conceitualmente, e acredito que após a pandemia a gente sai maior do que entrou.

Me Gusta: Como você vê o cenário do Rock atualmente no país?

Tico: O Rock é um estilo que passa por ciclos. Então, nos anos 80 ali teve um ciclo muito maior, nos anos 90 tiveram muitas bandas legais também, no início dos anos 2000 o Detonautas começou a fazer sucesso e a gente viu o Rock passar por um momento, que ainda tinha bastante espaço na mídia e nos meios de comunicação. E, hoje em dia, obviamente existem vários artistas fazendo música em todos os lugares e Rock das mais variadas vertentes. Não é o protagonista do cenário do Brasil, mais resiste aí, ainda fazendo obras e artistas relevantes. Acho que lá fora tá começando uma revisão do Rock como estilo, como atitude e como estética, então pode ser que daqui a um tempo, mais para frente, a gente comece a perceber algum reflexo aqui pelo Brasil. Nós, como artistas de Rock, a gente entendi que o Rock tem que falar a língua do povo. Então, é pro povo que a gente fala e nossas posições são para o povo, as nossas ideias são para o povo. Então acredito que o Detonautas esteja colaborando, à sua maneira, pra chegar nos mais jovens e não deixar que o Rock fique só em determinada idade, acima dos 25, 30 anos e pra ele não envelhecer. Nossa missão e tentar fazer uma ponte, obviamente. Quando o estilo estiver mais aflorado talvez na molecada, na juventude, a gente consiga conectar e fazer com que o estilo volte a ter algum protagonismo.

Me Gusta: Dentro do que puder adiantar, quais os próximos passos da banda?

Tico: Em em relação aos nossos próximos passos, a gente tá lançando agora o “Racismo é Burrice” com o Gabriel e a gente tem mais três músicas prontas; duas inéditas e uma regravação de “Carta Ao Futuro” que foi lançado o ano passado em Agosto, só que numa versão acústica. E a gente tem ainda um disco inteiro, que tá todo inédito pra movimentar ao longo do ano, enquanto a gente não pode voltar a fazer shows. Então nossa meta é continuar lançando singles ou lançar um disco no segundo semestre e aguardar a vacinação pra que a gente possa voltar para a estrada, e aí sim com os projetos que a gente tem e que já eram formatados para 2020, e ficaram pra depois da pandemia.

Foto: Instagram de Tico Santa Cruz